Um Gonzagão baiano: ator encontra a própria história em turnê

Ao percorrer 30 cidades nordestinas interpretando um personagem que atravessa o tempo para contar a história de Luiz Gonzaga, o ator baiano Bruno Sousa acabou encontrando algo além da trajetória do Rei do Baião. Encontrou a si mesmo.

Nascido na Bahia e radicado no Rio de Janeiro, o artista afirma que a circulação pelo interior da região funcionou como uma espécie de retorno às próprias origens. Entre teatros, escolas e encontros com estudantes, ele diz ter revisto sotaques, memórias e modos de viver que ajudaram a construir sua identidade.

A experiência também reforçou uma reflexão que considera urgente: a distância entre o Nordeste real e a imagem que ainda predomina no imaginário nacional. Para Bruno, Gonzaga foi fundamental para dar voz à região, mas o Nordeste contemporâneo vai muito além dos símbolos que marcaram a obra do músico.

Em entrevista ao site Ronaldo Jacobina, o ator fala sobre pertencimento, memória, juventude e explica por que passou a enxergar Luiz Gonzaga como um artista “transgressor”.

Você nasceu na Bahia e hoje vive no Rio. Em algum momento da turnê sentiu que estava revisitando sua própria história?

A Bahia é a minha identidade mais pulsante. Tudo o que sou como indivíduo e como ator vem de lá. Tenho muito orgulho das minhas origens e da minha formação como artista baiano. Falar de Luiz Gonzaga é também falar das minhas raízes. Durante essa circulação, foi inevitável me reconhecer nos olhos de quem assiste, nos sotaques, nos modos de viver, na força e nos sonhos das pessoas. Em muitos momentos, tive a sensação de revisitar a minha própria trajetória através da história que conto no palco.

Gonzagão ajudou a construir uma imagem do Nordeste para o Brasil. Qual Nordeste você encontra hoje nas estradas?

O que Luiz Gonzaga fez foi fundamental. Ele deu voz a um Brasil profundo que, até então, era pouco ouvido. Mas é importante lembrar que o Nordeste não se resume a esse imaginário. O Nordeste é cultura popular, mas também é universidade, pesquisa, ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento econômico. Vejo um Nordeste que preserva com orgulho as raízes celebradas por Gonzaga, mas que também olha para o futuro. Muitas vezes, a região ainda é associada apenas ao barro, à seca ou à dificuldade, quando existe um Nordeste moderno, conectado e cheio de possibilidades.


O que mais tem chamado sua atenção na reação do público?

É engraçado porque fazer um monólogo também é estar rodeado de pessoas. Em cena, eu realmente me sinto de mãos dadas com a plateia. Os olhos das pessoas brilham porque elas se reconhecem na narrativa. É a nossa história sendo contada, nossa memória afetiva ganhando voz e corpo. Talvez a maior emoção seja justamente essa: poder entreter e informar ao mesmo tempo. A cada cidade, percebo que essa história continua viva no coração das pessoas.

Houve alguma descoberta sobre Luiz Gonzaga que mudou sua percepção sobre ele?

Na verdade, a pesquisa apenas reforçou a admiração que eu já tinha. Quanto mais mergulho na trajetória dele, mais percebo o quanto foi um artista à frente do seu tempo. Luiz foi transgressor justamente porque teve coragem de romper padrões para afirmar a própria identidade. Em uma época em que muitos buscavam se adequar ao que era considerado mais aceito, ele assumiu suas origens, seu sotaque e sua cultura. Fez da própria verdade a matéria-prima da sua arte.

O espetáculo tem muitos jovens na plateia. O que mais surpreende nessa relação deles com Gonzagão?


É perceber como os jovens se conectam com Gonzagão quando têm a oportunidade de conhecê-lo. Mesmo vivendo em outro tempo, eles reconhecem ali questões muito atuais: identidade, pertencimento, sonhos, família e orgulho das próprias origens. A arte tem esse poder de criar pontes entre gerações. Muitas vezes eles aprendem sobre história e cultura quase sem perceber.

Depois de tantos meses mergulhado nesse universo, existe alguma música que ganhou um significado novo para você?

Assum Preto. Ela me toca profundamente porque fala de dor e resistência. Gonzaga usa a metáfora de um pássaro ferido para construir uma reflexão muito poderosa. Mesmo machucado, o pássaro continua cantando. Sinto que existe muito de nós, brasileiros, nessa imagem. Muitas vezes seguimos em frente apesar das perdas, das dificuldades e das dores que a vida impõe. E, ainda assim, encontramos maneiras de continuar sonhando e criando.

Fotos: Divulgação

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