Une Cozinha: Um menu para marcar a segunda temporada

O Une Cozinha, restaurante que ocupou a casa onde funcionou durante muitos anos a Casa Castanho, no Rio Vermelho, é o novo projeto da chef Cris Une, ex-sócia do espaço que migrou para a Barra depois que as duas proprietárias decidiram seguir caminhos diferentes. O empreendimento da paulista que fincou os pés por aqui há cerca de 15 anos, aposta naquela sensação cada vez mais rara de desacelerar na cidade por algumas horas. Sinais da sua origem oriental, talvez. E pode ser exatamente aí que esteja o seu maior acerto.

Há cerca de duas semanas, estive lá para conhecer a nova temporada da casa – sim, porque a proposta da chef é apresentar um cardápio a cada temporada, período definido por ela que pode ser dois meses, três, ou mais – inaugurada recentemente, e saí com a impressão de que o projeto entende bem o tempo em que vive: um tempo em que as pessoas não procuram apenas comida, mas lugares onde consigam permanecer.

Berinjela coreana

Instalado numa casinha charmosa numa rua discreta, o Une mistura restaurante, café, galeria e refúgio urbano sem cair na armadilha do “conceito pelo conceito”. Existe uma coerência entre o que está no prato, o que está nas paredes e o clima que atravessa o ambiente. Tudo parece pensado para funcionar junto — sem rigidez, sem formalidade excessiva e sem aquele tom performático que muitas casas autorais acabam assumindo. Isso sem contar com o atendimento: atento, cordial e leve, resultado de uma equipe bem treinada e que sabe “vender” o que a casa tem para oferecer, sem ser invasivo ou chato.

Frango Karaage

Não experimentei a primeira temporada na íntegra, mas alguns do itens que seguem nesta nova temporada que mantém a proposta de menus sazonais e da integração entre gastronomia e arte. Nesta edição, a artista Maria Correia ocupa o espaço com a exposição “Terrenos Áridos”, trazendo telas e tecidos que falam sobre deslocamento, memória e pertencimento.

Curiosamente, a presença das obras espalhadas pelo térreo e mezanino altera mesmo a experiência da refeição. O ambiente ganha uma atmosfera contemplativa, quase silenciosa em alguns momentos, como se o restaurante naturalmente pedisse mais presença e menos pressa.

Katsu sando

Na cozinha, Cris Une segue trabalhando a ideia de comida afetiva com linguagem contemporânea. O cardápio muda conforme as estações, mas preserva alguns pratos escolhidos pelos próprios clientes — uma solução inteligente para manter identidade sem engessar criação.

Entre as novidades, o Katsu Sando talvez sintetize bem a proposta da casa. O clássico sanduíche japonês aparece equilibrando conforto e técnica: pão de leite extremamente macio, produzido artesanalmente ali, lombo suíno empanado no panko, molho agridoce na medida certa e textura suficiente para transformar algo aparentemente simples numa experiência muito mais interessante do que parece na descrição.

Mas o Frango Karaage que consiste em pedaços de sobrecoxa empanados e caramelizados, acompanhado de creme azedo, é uma boa pedida.  Une talvez funcione menos pelos pratos isoladamente e mais pelo conjunto. Pela música em volume correto, pela luz suave do fim da tarde entrando no salão, pelo ritmo desacelerado do serviço e pela sensação de que ninguém está tentando apressar a experiência do cliente para girar mesa.

Lula ao molho romesco

Não é exatamente um lugar para uma refeição de prato principal, no formato que estamos acostumados, mas de comidinhas leves, despretensiosas, para consumo individual ou para compartilhar. O Tiradito de Atum, por exemplo, eu colocaria nesta categoria. Vem com molho ponzu de yozu, chilli oil, beurre blanc, azeite verde, laranja tostada e brotos.

Há uma Salvador gastronômica nova surgindo aos poucos, menos preocupada em copiar tendências de São Paulo e mais interessada em construir identidade própria. E a gente tem que ficar ligado nisso. A casa de Cris Une parece fazer parte dessa nova cena. Um espaço que entende que sofisticação não precisa ser sinônimo de luxo ou de formalidade e que experiência gastronômica também pode ser feita de pausa, afeto e permanência.

No frigir dos ovos, acredito que seja isso que o Une entregue melhor: não apenas uma refeição, mas um pequeno intervalo da cidade.

Serviço:

Une Cozinha – @unecozinha

Rua Alexandre de Gusmão, 57, Rio Vermelho

Fotos: Brenda Matos/Divulgação

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