Há experiências gastronômicas que terminam quando a conta chega. Outras continuam presentes na estante, na parede de casa e, sobretudo, na memória. Desde 1994, a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança transforma pratos em recordações. A cada receita criada especialmente para o projeto, o cliente recebe uma cerâmica artesanal pintada à mão, exclusiva daquele restaurante e daquela edição.
Inspirada na italiana Unione Ristoranti del Buon Ricordo, a associação reúne casas reconhecidas pela identidade de suas cozinhas e pelo trabalho de seus chefs. A entrada no grupo exige o cumprimento de uma série de critérios, além do acompanhamento constante dos restaurantes associados.
Em 2026, a Bahia está representada pela Casa de Tereza, pelo Vini Figueira Gastronomia e pelo Don Fabrizio. São três cozinhas com identidades distintas, unidas pela proposta de contar suas histórias por meio de receitas criadas especialmente para a coleção.
“A Boa Lembrança é um símbolo de qualidade. Os colecionadores sabem que, para fazer parte da associação, o restaurante precisa atender a vários pré-requisitos. Estar ali é um ótimo cartão de visitas”, afirma Tereza Paim, cujo restaurante é membro da associação.

Na Casa de Tereza, Paim escolheu celebrar uma das manifestações mais emblemáticas da cultura baiana. Batizado de “Carnaval no Mar”, seu prato leva para a mesa o encontro entre a festa e os sabores do litoral, dois universos presentes na trajetória da cozinheira.
Segundo ela, a escolha do prato é livre, e este ano decidiu falar do Carnaval. “Uma manifestação que é tão icônica para a Bahia e uma das maiores festas de rua do planeta. Criei o ‘Carnaval no Mar’ para contar essa história a partir da minha cozinha”, explica.
A criação segue um caminho recorrente no trabalho da chef baiana que costuma relacionar seus pratos da Boa Lembrança à cultura da Bahia ou a causas sociais. Para ela, a cerâmica não deve apenas reproduzir a receita, mas carregar também um pouco do lugar, das pessoas e das referências que deram origem àquele sabor.

No Vini Figueira Gastronomia, o prato deste ano nasceu de uma decisão tomada em duas frentes: primeiro, pelo sabor; depois, pelas possibilidades de transformá-lo em imagem. O chef escolheu um arroz de pato que já integrava o repertório da casa e ganhou nova apresentação, com a coxa confitada e um elemento crocante na finalização.
“Quando escolho o prato, penso também na arte que será criada para a cerâmica, porque eles sempre fazem algo muito divertido. Mas o sabor vem junto. Esse arroz de pato já existia na casa e, nesta versão, ganhou a coxa confitada e um crocante que o deixou ainda mais especial”, conta Vini.
Adesão
A relação do chef com a Boa Lembrança começou muito antes de seu restaurante ingressar na associação, há quatro anos. Formado em Gastronomia há duas décadas, Vini conheceu o projeto ainda no início da carreira, quando trabalhou em um restaurante de Búzios que já integrava o grupo.
“Desde aquela época eu via os pratos, os restaurantes participantes e as pessoas colecionando as cerâmicas. Sempre tive vontade de fazer parte. Quando conseguimos entrar, foi a realização de um desejo antigo”, recorda.
O processo, segundo ele, levou cerca de dois anos. A seleção criteriosa não termina com a aprovação do restaurante: o trabalho das casas continua sendo acompanhado para assegurar a qualidade exigida pela associação.
“Participar de uma entidade tão séria é muito importante para nós. Ficamos felizes cada vez que alguém vem ao restaurante, experimenta o prato e leva nossa arte para casa. De alguma maneira, nosso trabalho fica eternizado ali”, diz o chef.
O terceiro representante baiano é o Don Fabrizio, restaurante que mantém sua cozinha ligada às tradições da Itália. Sua participação acrescenta outro sotaque à seleção estadual e reforça a diversidade dos restaurantes reunidos pelo projeto: da cozinha de raízes de Tereza Paim à leitura contemporânea de Vini Figueira, passando pelo repertório italiano do Don Fabrizio.
Coleção
As cerâmicas acabaram se tornando objetos de desejo. Há colecionadores que planejam viagens, atravessam cidades e montam roteiros em busca dos lançamentos de cada ano. Nas paredes de casa, os pratos formam uma espécie de diário gastronômico: cada peça pode recordar uma viagem, um aniversário, um encontro ou um almoço sem motivo especial que acabou se tornando inesquecível.
Talvez esteja aí a força da Boa Lembrança. Em um tempo no qual tantas experiências são registradas rapidamente no celular e logo substituídas pelas próximas, a associação propõe uma memória com peso, forma e cor. O sabor desaparece da boca, mas a história permanece — pintada à mão e pronta para ser contada outra vez.
