O cantor, o cantador e a música: o que esperar do espetáculo sobre Moraes Moreira no TCA

A trajetória de Moraes Moreira chega ao palco da Sala Principal do Teatro Castro Alves, em Salvador, nesta quinta-feira (13), a partir de diferentes perspectivas. Em vez de construir uma representação única do artista, o musical aposta no encontro de personagens que traduzem aspectos distintos de sua vida e de sua relação com a música. Entre eles estão o Cantor e o Cantador, além da Musa Música, personagem criada para representar a própria força que atravessou a trajetória artística de Moraes.

Parte dos detalhes do espetáculo puderam ser vistos em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira (10), quando o site Ronaldo Jacobina acompanhou duas das cenas inéditas do musical e conversou com elenco e produção. A proposta parte justamente da ideia de que Moraes não cabe em uma única definição. Sua história passa pela composição, pela poesia, pelo cordel, pela música popular brasileira e por diferentes gêneros que ele incorporou à própria linguagem. No espetáculo, essas dimensões ganham corpo e passam a se relacionar.

Um dos pontos centrais dessa construção é a diferença entre o Cantor e o Cantador. A divisão ajuda a apresentar momentos e características distintas do artista, ao mesmo tempo em que revela como essas partes se complementam na formação de um Moraes mais inteiro.

Rodrigo Sestrem, que vive o Poeta Cantador, explica: “Como a gente brinca aqui, nós somos dois brincantes que estão homenageando lados do mesmo artista. Ela, de um lado, representa o cordel; o outro, o dia a dia. Acho que é justamente essa amálgama que nos permite chegar a um Moraes inteiro.”

A relação de Moraes com o cordel aparece como uma passagem importante nessa construção. O artista encontrou nesse universo uma paixão que ajudou a ampliar sua forma de expressão. Antes disso, o percurso já passava pelas melodias, pelas parcerias com poetas e, posteriormente, pela escrita das próprias letras.

Esse caminho também ajuda a explicar a presença de diferentes referências musicais no espetáculo. Moraes foi um artista que transitou por muitos gêneros e incorporou essas influências sem abrir mão de uma identidade própria.

Ronei Jorge, diretor musical do espetáculo, afirma: “Moraes foi um cara que abraçou muitos gêneros musicais. Havia nele um reconhecimento muito profundo dos gêneros, desse universo da música brasileira, e isso é muito impressionante. E também impressionava a humildade que ele tinha para lidar com tudo isso, para transitar por tantos universos musicais sem perder a própria identidade.”

A música, no entanto, não aparece apenas como trilha ou elemento de composição do espetáculo. Ela ganha corpo e se transforma em personagem. Na dramaturgia, a Musa Música representa essa busca permanente que acompanha o artista ao longo da vida: a procura por referências, a inspiração e o impulso de criação.

Isso porque a produção entende que existe, no percurso de Moraes, uma busca infindável pela música. Ele encontra referências, se inspira e cria o tempo todo. A criação da Musa Música parte da compreensão de que a arte precisava estar presente em diferentes momentos da trajetória de Moraes, mas sem assumir uma posição distante ou idealizada.

Júlia Tizumba, que interpreta a Musa Música, explica: “Ela está no sublime, mas a gente não queria que caísse nesse lugar de uma coisa inalcançável, sagrada. A gente queria que fosse um sagrado profano. Ela está no sublime, está no delicado, está no rock and roll, está no feio, está caindo no chão porque estava mal.”

A ideia de transformar diferentes dimensões da vida de Moraes em personagens também cria um desafio para quem está em cena: como representar alguém cuja voz, presença e maneira de cantar estão tão marcadas no imaginário do público?

A construção do personagem passou pela observação de registros do artista e pelas histórias contadas por pessoas que conviveram com ele. A voz foi um dos elementos fundamentais desse processo.

Cris Meireles, que vive o jovem Vaqueiro do Som, afirma: “Moraes é uma pessoa que tem um timbre muito específico. A gente carrega na memória uma voz muito particular, e essa voz também se expressa na maneira como ele canta. Ele canta de um jeito muito específico.”

A preocupação, porém, não era produzir uma imitação. O objetivo era encontrar caminhos para aproximar o público da essência do artista sem apagar o caráter de criação do espetáculo.

Cris Meireles completa: “E, claro, não vai ser ele. Mas é trazer, através de quem está interpretando, o máximo possível do seu poder, da sua essência, e fazer isso da melhor maneira possível.”

O trabalho também exigiu imaginar momentos da vida de Moraes aos quais o público não tem acesso. A encenação parte de registros reais, mas também abre espaço para a criação de situações, encontros, sonhos e memórias possíveis. Cris Meireles explica: “Como colocar esse personagem em situações que ele não viveu? Em encontros que ele não teve? Na possível poesia, no possível sonho, na infância à qual a gente não tem acesso?”

É nesse território entre memória, pesquisa e invenção que o musical procura construir sua própria leitura de Moraes Moreira. O desafio, portanto, é transformar uma trajetória tão extensa e diversa em uma experiência teatral sem reduzir a complexidade do artista.

Para isso, o espetáculo aposta no encontro entre personagens, na música como presença cênica e na liberdade de imaginar aquilo que a biografia não consegue alcançar. Ana Paula Bouzas, diretora do espetáculo, resume: “Essa foi a nossa bússola: o poeta cantador narra; o vaqueiro do som vive; a Musa Música inspira e conduz; e o Bloco do Prazer realiza e comenta.”

É a partir dessa bússola que o musical chega ao palco do Teatro Castro Alves: não para apresentar uma única versão de Moraes Moreira, mas para colocar suas diferentes faces em diálogo e, desse encontro, construir um artista múltiplo — cantor, cantador, poeta, compositor e, sobretudo, alguém em permanente busca pela música. Os ingressos para o musical estão disponíveis no Sympla.

Fotos: Wendel de Novais

Veja também: Após estreiar em Salvador, espetáculo sobre Moraes Moreira vai ganhar o Brasil

Compartilhar artigo

Redação

Somos um time de profissionais de comunicação liderado pelo jornalista Ronaldo Jacobina, profissional com mais de 30 anos de atuação na imprensa brasileira.
Neste espaço nosso compromisso é com a informação bem apurada e com a defesa da verdade dos fatos.

Parceiros

Categorias

Contato

contato@ronaldojacobina.com.br

Parceiros

O seu portal de notícias sobre eventos, cultura, gastronomia e sociedade. Fique por dentro de tudo que acontece.

Redes

© 2026 todos os direitos reservados | Desenvolvido por Próximo Passo

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.

Aceitar
Rejeitar