Pitanga, o cinema e a Bahia: legado do artista revela a história do audiovisual baiano

Quando fala sobre a Mostra Pitanga, Antonio Pitanga pouco direciona os holofotes para si. Embora a retrospectiva reúna 29 filmes que ajudam a contar seus quase 70 anos de carreira, o ator prefere destacar aqueles que caminharam ao seu lado na construção do cinema baiano e brasileiro. Glauber Rocha, Roberto Pires, Orlando Senna, Oscar Santana e o reitor Edgar Santos surgem constantemente em suas lembranças, reforçando que sua trajetória também é fruto de um movimento coletivo.

Até o dia 9 de agosto, o Cine Glauber Rocha e o Cine Lankiana recebem a programação da Mostra Pitanga, a maior retrospectiva cinematográfica dedicada ao ator e diretor, um dos principais nomes do Cinema Novo e do protagonismo negro no audiovisual brasileiro. Com curadoria de Camila Pitanga e Thiago Ortmann, a programação reúne curtas e longas que atravessam quase sete décadas de carreira. Em entrevista ao site Ronaldo Jacobina, Antonio Pitanga falou sobre a emoção de retornar a Salvador para receber a homenagem.

O que representa voltar a Salvador e ver sua trajetória celebrada justamente na cidade onde tudo começou?

Representa receber flores em vida. Essa mostra simboliza humildade e agradecimento por tudo o que vivi ao lado daquele movimento revolucionário que foi o Cinema Novo, liderado por Glauber Rocha, Roberto Pires, Orlando Senna, Oscar Santana e tantos outros jovens que acreditavam na força do cinema brasileiro. Não posso deixar de lembrar de Edgar Santos, que fez a Bahia compreender a importância da cultura, da literatura, da música, da dança e das artes. Essa homenagem consagra uma trajetória de quase 70 anos de cinema e reafirma o que o Cinema Novo fez de mais importante: dar protagonismo ao povo brasileiro. Eu sou filho desse protagonismo. Voltar para minha Bahia e receber esse reconhecimento é dizer: muito obrigado. Valeu a pena e continua valendo.

A retrospectiva reúne filmes que atravessam quase sete décadas da sua carreira. Ao revisitar esse percurso, quais momentos mais emocionam ou surpreendem o senhor hoje?

Essa retrospectiva desperta muitas emoções porque traz de volta a memória daquele movimento revolucionário. Ela não fala apenas dos cineastas baianos, mas de todas as pessoas que fizeram o cinema da Bahia se tornar um dos maiores acontecimentos culturais deste país. Revisitar essa história é, acima de tudo, agradecer à Bahia por ter produzido um cinema tão original. Aos 87 anos, poder compartilhar essa memória com os jovens é um presente. Naquela época, havia uma efervescência extraordinária. O Cinema Novo dialogava com a Tropicália, com as artes plásticas, com a literatura, com a fotografia. Eram nomes como Carybé, Calasans Neto, Batatinha, Riachão, depois Caetano, Gil, Bethânia, Gal Costa. Hoje, quando vejo filmes como Ainda Estou Aqui, O Último Azul, Malês e tantas outras produções brasileiras, percebo que aquela revolução continua dando frutos.


Muitos dos filmes da mostra têm Salvador como cenário e registram uma cidade que mudou bastante ao longo do tempo. Como é reencontrar essa Bahia nas telas?

Os filmes mostram a Bahia das décadas de 1940, 1950 e 1960, mas não foi apenas a Bahia que mudou. O mundo mudou. Eu saí da Bahia, mas a Bahia jamais saiu de mim. Sempre mantive essa ligação por causa da minha família, dos amigos e das minhas raízes. Quando vejo Salvador nas telas, encontro a Bahia de Jorge Amado, de Batatinha, de Riachão, de Carybé, de tantos artistas que ajudaram a construir nossa identidade. Eu nasci no Pelourinho, e aquele Pelourinho continua vivo dentro de mim. A arquitetura pode ter mudado, mas a alma do povo permanece a mesma.

Como foi ver sua própria história revisitada pela sua filha? Houve alguma conversa ou descoberta especial durante esse processo?

Camila fez essa curadoria sem conversar comigo. Ela mergulhou na minha trajetória, pesquisou, garimpou materiais e construiu esse projeto a partir do próprio olhar. Ela já conhecia muito dessa história porque dirigiu o documentário Pitanga, ao lado de Beto Brant. Além disso, sempre esteve presente na minha vida. Fui pai muito jovem, então ela cresceu acompanhando minha caminhada no teatro, no cinema e na televisão. Para mim, é um presente vê-la como curadora dessa mostra. Ela conhece não apenas minha história, mas também minha alma.

O que o senhor espera que o público baiano, especialmente as novas gerações, leve consigo após assistir à mostra?

Espero receber da minha Bahia o carinho que sempre recebi. Nunca fui abandonado pelo meu povo. Também espero que os jovens compreendam a força dessa Bahia que sempre foi revolucionária. A Bahia de Mário Gusmão, Emmanuel Araújo, Ewald Hackler, Batatinha, Riachão, dos terreiros, da capoeira de Mestre Pastinha e de tantos artistas que ajudaram a construir nossa identidade cultural. Quero ver essa juventude olhando para o futuro sem perder a memória. A Bahia sempre inaugura o novo. Essa ousadia artística corre nas veias do povo baiano, e é isso que desejo que permaneça vivo nas próximas gerações.

Fotos: Divulgação

Veja também: Antônio Pitanga terá sua trajetória de vida artística e pessoal contada em musical

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