O traço cuidadoso, a estética encantadora. As cores suaves, a tradição do artesanal, da criação feita à mão. Quem não quis se transformar nem que fosse por um momento em um anime japonês com referências ao estilo icônico do estúdio responsável por filmes como ‘A Viagem de Chihiro’ (2001) ou ‘Meu Amigo Totoro’ (1988) ? Pois é. Não foi difícil ver, nas últimas semanas, o feed das redes sociais completamente tomado por uma onda de imagens inspiradas no estilo do Studio Ghibli.
Tudo isso porque a OpenAI lançou no final do mês de março uma ferramenta integrada ao Chat GPT-4 que consegue gerar imagens que replicam o estilo de anime do Studio Ghibli. Bastou subir uma imagem no ChatGPT e digitar “transforme essa imagem em uma ilustração parecida com os desenhos do Studio Ghibli”, pronto: não demorou muito para todo mundo seguir a trend e virar desenho animado.
Em entrevista, o CEO do ChatGPT, Sam Altman, já havia afirmado que após lançar o recurso de geração de imagens, a plataforma adicionou um milhão de novos usuários em uma hora, recorde que ultrapassou sua própria marca de adoção acelerada que antes era de cinco dias. Na ocasião, o recorde pertencia ao lançamento do ChatGPT.
Ainda que o fundador do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki, há anos atrás, já tenha se mostrado absolutamente contrário ao uso inteligência artificial na criação artística, a precisão e o realismo das ilustrações criadas por meio de IA chegaram a sobrecarregar os servidores da OpenAI.
A plataforma limitou, recentemente, a geração de até três ilustrações por dia para usuários da versão gratuita. O fenômeno gerou também polêmica em torno dos direitos autorais, apropriação do estilo criativo de artistas e da proteção de dados pessoais dos usuários. No entanto, o Studio Ghibli, até o momento, não se manifestou sobre o movimento viral de criação de imagens no estilo de seus filmes pelo ChatGPT.
E se o ChatGPT gera em poucos segundos um anime, o Studio Ghibli levou mais de um ano para desenhar à mão cena de apenas 4 segundos. Foi o que aconteceu com o filme Vidas ao Vento (2013). Na cena, o personagem aparece cruzando uma multidão de pessoas. A equipe de criação levou 15 meses desenhando quadro por quadro, todo à mão.
O estúdio de animação japonês já conquistou duas estatuetas do Oscar de Melhor Animação. A primeira, em 2001, com A Viagem de Chiriro, que desbancou A Era do Gelo e Lilo & Stitch. Além disso, a produção consagrou a primeira vez que uma animação japonesa conquistava o prêmio. Em 2023, foi a vez de ‘O Menino e a Garça’ (2023) levar a estatueta. Ao todo, a produtora já desenvolveu 24 filmes desde sua fundação.
“Acho que a animação é algo que precisa do lápis, precisa da mão humana desenhando, e é por isso que decidi fazer este trabalho dessa maneira. Continuarei a usar meu lápis enquanto puder”, disse Hayao Miyazaki, ainda em 2008, durante o 65º Festival de Cinema de Veneza, enquanto divulgava o filme Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (2008). Criado em 1985, no Japão, pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata e pelo produtor Toshio Suzuki, o Studio Ghibli, levou quase 800 mil pessoas para as salas de cinema no seu primeiro filme oficial, o Castelo do Céu (1986).
A partir daí, a consagração veio com outras produções importantes que se tornaram clássicos, colocando o Studio Ghibli no patamar de referência na indústria da animação mundial, justamente pelo valor artesanal dos seus desenhos. Listamos 10 filmes para quem quer conhecer o estilo Studio Ghibli para além da trend. Todos os títulos estão disponíveis na Netflix. Confira.
Meu Amigo Totoro (1988)
As irmãs Satsuki e Mei passam por desafios diante de um momento sensível, quando conquistam amigos inusitados como os espíritos da floresta.
Túmulo dos Vagalumes (1988)
O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Seita e Setsuko ficam órfãos após um bombardeio no Japão e são obrigados a sobreviver sozinhos.
O Serviço de Entregas da Kiki (1989)
Kiki é uma bruxinha de 13 anos que trabalha como entregadora numa padaria e vive inúmeros desafios para se tornar independente.
Princesa Mononoke (1997)
Um príncipe amaldiçoado está em busca da cura, que acaba se envolvendo com uma guerreira defensora da floresta contra aqueles que querem destruir os recursos naturais.
A Viagem de Chihiro (2001)
O filme de Hayao Miyazak levou para o Japão o Oscar de Melhor Animação em 2001. Chihiro é uma garotinha de 10 anos que vive aventuras em um mundo secreto de espíritos e feitiçaria, onde os pais foram transformados em porcos. Ela vai fazer de tudo para salvá-los.
O Castelo Animado (2004)
Inspirado no livro da escritora Diana Wynne Jones, o filme conta a jornada de Sophie, que encontra o feiticeiro Howl e seu castelo animado.
Ponyo: Uma Amizade Que Veio do Mar (2008)
O filme conta a história de amizade entre a peixe Ponyo, que se transforma em menina, e o garotinho Sosuke.
O Mundo dos Pequeninos (2010)
Inspirado no livro “Os Pequeninos Borrowers”, de Mary Norton, o ‘Mundo dos Pequeninos’ traz a história de uma família minúscula que vive secretamente nos assoalhos de uma casa em Tóquio.
As Memórias de Marnie (2014)
Anna é uma garota adotada que se sente sozinha, mas sua vida muda totalmente quando ela conhece a misteriosa Marnie, que mora em uma mansão abandonada.
O Menino e a Garça (2023)
O filme mais recente da produtora a ganhar o Oscar de Melhor Animação conta a história de Mahito, que precisa lidar com a perda da mãe. Ao conhecer uma garça falante, ele embarca em um mundo mágico e cheio de novas experiências.
Fotos: ‘A Viagem de Chihiro’ (2001) (Reprodução), Hayao Miyazaki (Getty Image), ‘Meu Amigo Totoro’ (1988) (Reprodução) e ‘O Menino e a Garça’ (2023) (Reprodução)