No bairro da Ribeira, em Salvador, mais especificamente no número 70 da Rua dos Tainheiros, de frente para a balaustrada, quem chega encontra um casarão lilás recém-pintado. Degraus acima e passos adiante, os visitantes se deparam com uma verdadeira galeria de azulejos espalhados pelas quatro paredes. Mais ao fundo, no final do espaço, é possível ver um senhor de cabelos brancos, atento e concentrado, manipulando obras que logo serão integradas ao acervo da casa-ateliê.
À medida que alguém se aproxima, porém, o rosto do anfitrião muda, abrindo-se em uma expressão simpática e em um sorriso acolhedor. Este é Prentice Carvalho, de 85 anos, um “artista recluso” que mantém as portas abertas para fãs que queiram conhecê-lo — mas que raramente as usa para sair. Nascido na Rua dos Ossos, no Santo Antônio Além do Carmo, Prentice morou nas Mercês, em Brotas e na região do Relógio São Pedro antes de chegar à residência onde vive há 67 anos.
A ida para o endereço atual, quando ainda tinha 24 anos, aconteceu pela necessidade de um espaço compatível com o volume de materiais e obras que já produzia. Desde pequeno, o senhor de sorriso fácil demonstrou talento e amor pela arte — dons que fizeram a família superar o medo de vê-lo seguir esse caminho. “Meus parentes não queriam que eu fosse isso, não. Queriam que eu fosse médico, para ser famoso, não é? Porém, a coisa foi ao contrário do que eles pensavam e, se tivessem vivos, estavam todos de queixo caído”, brinca Prentice, lembrando dos feitos conquistados através da arte.
Mesmo com a desconfiança inicial de pessoas próximas, o artista se tornou, sim, alguém reconhecido. Uma das provas está nas várias pastas onde guarda ‘clipping’ de quem o visitou ao longo das décadas. Ao folhear as fotos, cuidadosamente plastificadas, Prentice revela empresários, artistas, estrangeiros e líderes internacionais que passaram por ali para conhecê-lo. Nas pastas também se acumulam mensagens gentis de visitantes da Itália, Argentina, Suécia, Polônia, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha e tantos outros países que não caberiam em uma matéria só.

Pastas guardam lembranças de visitantes. Foto: Wendel de Novais
As visitas permitiram que sua arte viajasse o mundo todo, mesmo que ele próprio nunca tenha deixado o estado. “Eu nunca saí da Bahia. Na verdade, mal saio desta casa; só vou quando preciso comprar material para trabalhar. No máximo, fui aos interiores quando fazia painéis de azulejos e precisava explicar algumas coisas para os pedreiros. As viagens mais longas deixei para a minha arte fazer”, diz ele, antes de listar obras espalhadas por Salvador, Brasília e até no Vaticano — esta última levada por freiras que encomendaram um painel do Papa João Paulo II.
O seu sucesso, no entanto, é particular. “Eu sou diferente dos artistas. Não saio daqui para expor em outro lugar. Eu vivo do trabalho, da arte e de fazê-la todos os dias”, conta. Na rotina dele, tudo acontece no mesmo compasso: dia após dia, senta-se na cadeira para produzir, como fazia pouco antes da entrevista, riscando o desenho em um prato de porcelana que, depois de pintado e levado ao forno, se tornará mais uma de suas obras.
Esse processo se assemelha ao que Prentice fez com Salvador: espalhou seu talento pela cidade de maneira silenciosa, porém marcante. Estão por aí o painel de Santa Bárbara, na Fundação José Silveira, na Ribeira; o painel de Nossa Senhora e o da Via Sacra, na Igreja Mãe Rainha, no Stiep; o monumento ao lado da Igreja da Boa Viagem; o painel na entrada do Cemitério da Quinta dos Lázaros; além das inúmeras fachadas azulejadas de casas no Pelourinho e no Santo Antônio.

Azulejos de Prentice e Zé di Cabeça na Casa das Histórias de Salvador. Foto: Divulgação
Ele também é responsável, ao lado de Zé di Cabeça, do Acervo da Laje, pelos azulejos da Casa das Histórias de Salvador — uma das obras que mais chamam a atenção de quem visita o espaço. A escada apresenta desenhos de ambos artistas, Prentice pintou e queimou todos os azulejos da escadaria. Ele trabalhou ainda para Carybé, para Ronald Lago e com o ceramista alemão Udo Knoff, que viveu em Salvador. Tem também azulejos na Escadaria Seláron, no Rio de Janeiro. Mesmo com obras em tantos lugares e tantos admiradores, Prentice não alcançou a mesma fama dos nomes citados — e a razão parece clara: a fama nunca o seduziu.
“Tem artistas que vêm de São Paulo aqui me chamar de mestre. Queriam que eu fosse pra lá, porque lá o campo é maior para ganhar dinheiro, mas nunca me movi por isso. Tem um quadrinho meu — tá vendo ali aquela criatura? — que queriam comprar por uma boa quantia. Não vendi. O marajá da Arábia Saudita ofereceu o dinheiro e eu não quis”, relembra ele, divertindo-se ao recordar a história envolvendo o integrante da realeza do Oriente Médio.
A visão simples e direta reaparece quando fala da própria trajetória. “Eu trabalho com arte, mas não é como considerar ser artista. Eu fiz um tipo de trabalho desse não porque o povo ganhava dinheiro, mas só pra mostrar quem eu sou. Minha vida foi sempre essa daqui, trabalhando”, resume. Em cada frase, reforça que sua conexão com o fazer artístico vem de dentro — de um impulso íntimo, e não de reconhecimento externo.

Quadro que Marajá quis comprar do azulejista baiano. Foto: Reprodução
“Tem muita gente que nem sabe o que eu faço aqui. Uma, porque eu também não saio muito de casa. Minha vida é só o que tem na minha casa, entende?”, diz. E assim, com paredes tomadas por azulejos e histórias que atravessam fronteiras, Prentice Carvalho transforma uma casa de frente para a balaustrada da Ribeira em um dos espaços culturais mais autênticos de Salvador — um lugar onde a arte fala por ele, chega onde ele nunca foi e carrega, em cada peça, a assinatura silenciosa de quem prefere ficar, criar e viver ao próprio ritmo.
(Wendel de Novais)


