Se os antiquários são comerciantes que atuam com a venda e compra de produtos históricos e raros, na Rua Ruy Barbosa, no Centro Histórico de Salvador, essas figuras têm existido à imagem e semelhança dos itens que negociam.
A via ficou famosa e era movimentada nos anos 1960, mas vê, em 2025, o número de empresários do tipo ser quase metade do que já foi. O logradouro já teve 14 lojas de antiguidades. Hoje, sobraram apenas oito, que não veem, nem de perto, a circulação de pessoas que um dia ostentou.
Quem permanece no local não guarda apenas a memória nas quinquilharias que se acumulam dentro dos estabelecimentos: segura firme, também, a porta da história de um setor que viu o povo sair e bater em outras casas.

Um dos “guardiões” dessa história é Ademário Olímpio. Natural de Senhor do Bonfim, o empresário perdeu, justamente, a memória do que o trouxe à Ruy Barbosa. Sabe, no entanto, com absoluta certeza, o porquê de permanecer e resistir ali.
“Amor. Não saio daqui por amor. Já disseram para colocar os objetos em outro lugar. A gente até pensa, mas quem fala mais forte é o amor pelo antiquário e pela Ruy Barbosa”, justifica ele, que chegou ao local com cerca de 20 anos.
Como outros antiquários, Ademário viu a atividade comercial minguar, sobretudo pelo fato de os filhos dos comerciantes não terem apreço pelas antiguidades. Isso porque esse comércio não é como outro qualquer, com passagem hereditária.

Dentro dessa realidade, porém, há exceções, como Gildo Fortunato, 50 anos, dono do antiquário GG Antiguidades, herança do pai, que faleceu há 13 anos. Integrante da nova geração, ele mantém com orgulho o comércio, mesmo que este não seja visitado como foi nos tempos de seu pai.
Começou no comércio em 1994, quando ajudava o pai a cuidar do espaço. Entre compras e vendas, pegou gosto pela atividade. Mesmo longe do fervor pelas antiguidades do século passado, o empresário conta que, para quem é do nicho, o negócio ainda é conhecido.
“Eu sou apaixonado mesmo por antiguidade, por coisas antigas. Até em casa eu assisto só a programas antigos. Aqui ficou um pouco defasado, mas sempre aparece gente colecionando, e somos bem conhecidos por esse pessoal”, fala com orgulho.
Mesmo longe do brilho e da movimentação que marcaram a Rua Ruy Barbosa no século XX, os antiquários que ainda resistem no endereço seguem firmes na missão de preservar a memória.
Cada peça exposta nas prateleiras carrega fragmentos da história de Salvador, do país e das pessoas que por ali passaram. Mais do que negócios, esses espaços funcionam como verdadeiros templos do tempo, onde a história continua viva não apenas nos objetos, mas também nas paredes que testemunharam décadas de comércio, afeto e resistência.
Na próxima edição, conheça mais curiosidades sobre a Rua Ruy Barbosa
(Wendel de Novais)
Fotos: Elaine Sanoli e Divulgação


