A história da arte de Alberto Pitta se mistura à memória visual da cidade de Salvador. O artista plástico, com mais de quatro décadas de atuação — especialmente no Carnaval — se destaca pela estamparia têxtil e pela serigrafia, com uma produção intimamente afro-brasileira. Em sua densa e rica paleta de cores, o artista evoca os universos da mitologia iorubá e dos signos da diáspora africana, tão presentes em Salvador e na Bahia.
Num trabalho que reconta as inúmeras histórias que cruzaram o Oceano Atlântico, Pitta está em exibição no Palais de Tokyo, em Paris, na mostra Collective Joy – Learning flamboyance!, em cartaz até 5 de novembro. “A internacionalização do meu trabalho eu vejo como algo natural. Sou um artista negro da diáspora, filho de Maria Lourdes — Mãe Santinha de Oyá — do terreiro Ilê Axé Oyá, localizado no bairro de Pirajá, em Salvador. Levar meu trabalho para fora da Bahia, para fora do Brasil, é importante, mas é, sobretudo, fruto de 45 anos produzindo tecidos para os blocos afros no Carnaval de Salvador”, conta o artista.
O convite para a exposição foi feito pela curadora Amandine Nana, natural de Camarões. Das três obras expostas, uma foi feita especialmente para a mostra. “Enviei três obras em tecido: uma peça do Carnaval de 2014, feita para o Cortejo Afro com o tema Os Olhos de Xangô, também em homenagem ao antropólogo e fotógrafo Pierre Verger; outra criada em 1996 para o bloco Muzenza; e um tecido comissionado especialmente para a instituição, que trata sobre a água, o mar e a mulher. Essas três obras estão agora expostas em Paris, como resultado de um trabalho que venho desenvolvendo ao longo de décadas”, destaca.

Fundador do bloco Cortejo Afro, o trabalho de Pitta sempre desfilou pelas ruas de Salvador nas fantasias do Olodum, dos Filhos de Gandhy e do próprio Cortejo Afro. “Fiz apenas um deslocamento estético. Trouxe meu trabalho das ruas, do Carnaval da Bahia, para as galerias de arte. E hoje percebo um interesse crescente de galerias, instituições e bienais internacionais. Isso se manifestou na Bienal de Sydney, em uma exposição no Senegal, em 2024, e na SP-Arte, em São Paulo”.
O artista esteve recentemente na SP-Arte, maior feira do segmento na América Latina. “Uma das obras é de 1992, feita para o Olodum, com colagem, caneta hidrocor e serigrafia para o tema Índia, Caminhos da Fé. A outra é um Ibiri para Nanã, em que trabalho branco sobre branco em canvas, com búzios, ferramentas e richelieu — uma herança da minha mãe que venho utilizando desde meus primeiros trabalhos”, explica. Em setembro, o artista abre uma nova exposição na galeria Nara Roesler, que o representa em São Paulo.


