A cientista baiana Patrícia Lordêlo, que transformou sua experiência com o câncer de mama em motivação para aprofundar pesquisas sobre a saúde íntima feminina, lança no próximo domingo (18), em Salvador, o livro Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução. A autobiografia, que tem prefácio assinado por Regina Casé, será apresentada ao público às 10h, no Gabinete Português de Leitura, durante as celebrações do Outubro Rosa.
Fisioterapeuta pélvica, professora e pesquisadora especializada em Saúde da Mulher, Patrícia já se dedicava ao estudo das disfunções pélvicas quando recebeu o diagnóstico da doença. A experiência pessoal, no entanto, ampliou seu olhar sobre uma questão que, segundo ela, ainda recebe pouca atenção: os efeitos do tratamento oncológico sobre a sexualidade, a intimidade e a qualidade de vida das mulheres.

“Quando vivi o câncer de mama, passei a compreender também, na própria pele, questões que já faziam parte da minha trajetória profissional. Percebi o quanto a saúde pélvica e a sexualidade ainda são pouco discutidas durante e depois do tratamento. Transformar essa experiência em pesquisa e conhecimento é uma forma de ressignificar o que vivi e contribuir para que outras mulheres tenham acesso a um cuidado mais completo”, afirma.
Entre os efeitos que podem acompanhar o tratamento do câncer de mama estão alterações hormonais, ressecamento vaginal, desconforto durante as relações sexuais, redução da libido e sintomas urinários. São condições que podem persistir mesmo após a remissão da doença e comprometer aspectos importantes da vida cotidiana.
Uma revisão científica publicada em 2026, que reuniu 36 estudos envolvendo 9.749 sobreviventes do câncer de mama, estimou em 70% a prevalência de disfunção sexual entre as participantes. O levantamento ajuda a dimensionar um problema que, apesar de frequente, nem sempre encontra espaço nas conversas entre pacientes e profissionais de saúde.
Pesquisa premiada
Desde 2019, Patrícia e sua equipe investigam alternativas não hormonais para o tratamento dessas disfunções. Uma das linhas de pesquisa envolve o uso de LED azul intravaginal, tecnologia desenvolvida pelo próprio grupo, com o objetivo de contribuir para a recuperação do conforto vaginal em mulheres que passaram pelo tratamento oncológico.
Segundo a pesquisadora, estudos realizados até agora apontaram resultados promissores na melhora da lubrificação e do conforto vaginal. A próxima etapa deverá investigar a aplicação da tecnologia durante o próprio tratamento contra o câncer, inclusive com a possibilidade de utilização domiciliar. O método, entretanto, permanece em investigação e ainda não deve ser considerado um tratamento de eficácia definitivamente estabelecida.
O trabalho já rendeu reconhecimento internacional à equipe. Em 2022, Patrícia recebeu, em Viena, durante o congresso anual da Sociedade Internacional de Continência (ICS), um prêmio na categoria de melhor tratamento conservador, pelo estudo sobre o uso de LED na Síndrome Geniturinária da Menopausa em mulheres sobreviventes do câncer de mama.
Para a cientista, a fisioterapia pélvica deve integrar uma abordagem multidisciplinar, que considere não apenas o controle da doença, mas também o bem-estar físico e emocional das pacientes.
Da ciência à literatura
É justamente essa relação entre o conhecimento científico e a experiência pessoal que conduz a narrativa de Inteira. Na obra, Patrícia revisita o período em que enfrentou o câncer, as transformações provocadas pela doença e o processo de reconstrução de sua vida, entrelaçando memórias, espiritualidade, intimidade e pesquisa.
O prefácio é assinado pela atriz e apresentadora Regina Casé, que acompanhou de perto parte dessa trajetória. A publicação também reflete a relação da cientista com Portugal, país onde divide sua rotina entre atendimentos, atividades acadêmicas e pesquisas. A escolha do Gabinete Português de Leitura de Salvador para o lançamento faz referência a essa conexão.
Disponível nas versões impressa e digital, o livro chega ao público com uma finalidade que ultrapassa o relato autobiográfico: contribuir para a continuidade de estudos voltados à saúde pélvica e à qualidade de vida de mulheres que enfrentam ou enfrentaram o câncer de mama.
Toda a renda obtida com a publicação será destinada ao financiamento de novas pesquisas desenvolvidas pela cientista.
Fotos: Divulgação
