Após longos três meses de jejum o chef Ricardo Silva reabriu o Silva Cozinha, desta vez na primeira rua do Brasil, no coração do Centro Histórico. A nova casa da Rua Chile não ganhou apenas uma vista privilegiada para a Baía de Todos-os-Santos, mas também um cardápio que reflete a maturidade gastronômica de Ricardo Silva. A mudança marca uma nova etapa do restaurante, agora com o dobro da estrutura, funcionamento contínuo entre almoço e jantar e a volta da parrilla, uma das especialidades que ajudaram a construir a reputação do chef.

A nova cozinha revela um Ricardo Silva mais seguro de sua linguagem culinária. O fogo não chega a ser um protagonista, mas divide espaço com referências baianas, influências mediterrâneas e técnicas contemporâneas que valorizam ingredientes locais sem abrir mão da sofisticação.
Nas entradas, o chef já deixa clara a personalidade da casa. A Berinjela na Brasa, servida com missô, melaço, molho romesco e queijo feta, mostra como ingredientes simples podem ganhar complexidade quando encontram a técnica certa. O mesmo se pode dizer do Ceviche de Peixe do Dia, que troca o tradicional leche de tigre pelo de dendê, acrescido de um mix de pimentas baianas. Uma certeira interpretação regional de um clássico latino-americano.

O menu segue com propostas que transitam entre diferentes influências, como o Homus com Rosbife, acompanhado de picles, ervas frescas, azeite verde e pó de azeitona, e o delicado Mexilhão ao Leite de Coco, servido com manjericão e focaccia artesanal da casa.

Entre as entradas, vale lamentar a saída do sanduíche de siri do cardápio, um dos sucessos dos tempos do Rio Vermelho. Mas enquanto ele não volta – porque torço pra ele voltar – merece atenção especial o Sanduíche de Atum, preparado em brioche tostado na manteiga, com aioli, molho agridoce e furikake da casa. Uma combinação que traduz a proposta contemporânea e descomplicada do restaurante.

Já nos pratos principais, o retorno da parrilla se materializa no Bife de Chorizo na Brasa, servido com rigatoni e molho de cogumelos. O prato reafirma a habilidade de Ricardo Silva com as carnes e devolve ao cardápio uma das técnicas que sempre estiveram associadas à sua trajetória.
Outro destaque da cozinha de fogo é o Filé Mignon com Crosta de Duxelle de Tamarindo, acompanhado de riso al salto de parmesão, tomates e brócolis na brasa, finalizado com demi-glace. Um prato que combina técnica clássica, textura e profundidade de sabor.

O cardápio também reserva espaço para preparações que conversam diretamente com a cozinha afetiva brasileira, como o Arroz Caldoso de Cupim, servido com cebola assada e azedinha de couve.
Os frutos do mar ganharam mais destaque nesta nova etapa. O Ravioli de Camarão, servido com molho de moqueca, paçoca de fumeiro, chilli oil, camarões grelhados e pimenta-de-cheiro, sintetiza bem a proposta do chef de reinterpretar sabores baianos em apresentações contemporâneas.

Já o Peixe do Dia, acompanhado de beurre blanc de mexilhão, mousseline de banana-da-terra e pangrattato de limão e salsa, revela uma cozinha elegante, técnica e equilibrada.
As tradicionais moquecas – creio que para atender aos muitos turistas que circulam por aquela região e que já começaram a descobrir a casa – também estão no cardápio. Em versões de peixe, camarão ou mista, sempre acompanhadas de arroz de coco, farofa de dendê e banana-da-terra — um tributo à culinária que ajudou a consolidar a identidade gastronômica da Bahia.
As sobremesas, criadas por Anana (ex-Manga) segue valorizando ingredientes tropicais e referências afetivas. A Bala Baiana transforma um dos doces mais populares do estado em uma sobremesa refinada, combinando nougatine de coco seco, sorbet e caramelo de coco.

A Torta de Avelã aposta na intensidade do chocolate amargo, enquanto a sobremesa Cupuaçu e Maracujá trazem frescor e acidez equilibrados através de mousse, gel de capim-limão, sorvete e caramelo de cupuaçu.
Fechando o percurso, a Piña Colada surge em forma de sobremesa, reunindo massa choux, creme de coco, baunilha, rum, frutas tropicais e crumble de amêndoas.
Mas não é só na gastronomia que o Silva Cozinha conquista a clientela. Logo na entrada da casa, foi instalado um charmoso e aconchegante wine bar, defronte a uma bem nutrida adega que reúne centenas de rótulos, das mais diversas procedências, vendidos a preço de loja, além de uma carta assinada pela sommelière residente da casa Carol Souzah.

Mas de nada valeria tudo isso não fosse a equipe de cozinha, que ganhou o reforço de novos profissionais que se juntaram aos mais antigos, como a talentosa Ianca que veio lá do Rio Vermelho; a do bar, liderada pelo atencioso Rafael; e o do salão que tem entre seus colaboradores Ana Paula e Robélio, que também vieram lá do Rio Vermelho e que entregam um serviço atencioso e preciso. Para completar tem o olhar atento de Luciana Mastique, sócia da casa, mulher do chef e Relações Públicas.

Pelo que tenho visto nas muitas vezes em que estive lá, o novo Silva Cozinha transformou a mudança de endereço em algo muito maior do que uma simples reabertura. É a consolidação de um restaurante que encontrou na Rua Chile o cenário ideal para expandir sua cozinha, sua hospitalidade e sua visão de futuro.
Serviço:
@silvacozinha
Rua Chile, nº 07. Centro Histórico
Fotos: Nivaldo Filho/Divulgação
