Conforme prometido, a coluna COMIDA de hoje retoma a série dedicada aos menus executivos para mapear como diferentes restaurantes da cidade vêm reinterpretando essa modalidade — ora como solução prática e acessível, ora como extensão de suas cozinhas autorais. Ao longo das últimas semanas, passamos por cinco endereços, experimentamos dezenas de pratos — de entradas a pratos principais e sobremesas — e reunimos impressões que podem ajudar a entender as propostas de cada casa. Fomos do Rio Vermelho à Avenida Contorno passando pelo Carvão, Pasta em Casa, Casa Chálabi, Mistura Contorno e Leto Gastronomia.

O que se vê por aí é um movimento interessante: o menu executivo deixou de ser apenas uma equação de custo-benefício para se tornar, em muitos casos, um recorte fiel da identidade de cada restaurante — ainda que nem todos estejam dispostas a arriscar.

No Carvão, o chef Guto Lago nunca decepciona. Diz logo a que veio quando batiza o executivo da casa de Menu Criações. Sim, no combo que ele oferece, e que muda todos os meses, são três opções de entradas, três de pratos principais e duas sobremesas.

O deste mês tem Salada de Abóbora Assada, Esfera de Tapioca e Bolinho de Costela, pra começar. Depois pode escolher entre o Peixe Vermelho na Brasa, o Flat Iron na Brasa ou o Paillard de Filé Mignon, um trio que honra o DNA da casa: a parrilla. As sobremesas não chegam a surpreender: Tiramissu e Toucinho do Céu. O conjunto sai por R$ 109, o que convenhamos é bem razoável.

No Casa Chálabi, o executivo encontra um ponto de equilíbrio entre proposta, preço e identidade. A casa trabalha com combinações abertas em uma leitura líbano-mediterrânea com sutil atualização contemporânea. O Pide com Salada Fatouche abre o percurso com leveza, enquanto o Schnitzell com Homus, justifica estar ali.

Mas é na faixa mais alta que o menu se afirma melhor: o Michui de Mignon com Tabule – aquele espetinho árabe tradicional que reúne cubos de carne bovina nobre marinados e grelhados com cebola, tomate e pimentão – traz personalidade e equilíbrio. Já o Fettuccine com Camarão cumpre seu papel.

No conjunto, é um executivo coerente, com assinatura — ainda que pudesse, em alguns momentos, imprimir mais personalidade. Lá, o executivo não segue o preço fixo. Cada entrada, prato ou sobremesa tem preço individual. Mais em conta, claro. No geral, eu gostei.
Identidade
No Pasta em Casa, o mesmo chef Celso Vieira que assina o menu do Casa Chálabi, também criou um menu executivo que reafirma a identidade da casa: clássicos italianos, boa matéria-prima e execução correta. O formato com entrada, principal e sobremesa, é o que, de todos os visitados, tem o melhor custo-benefício: a partir de R$ 69,90. E não é fraco, não. Ao contrário, é bem desenhado, generoso e democrático.

As entradas cumprem o papel, sem grandes desvios. Nos principais, a Massa alla Norma se destaca pela simplicidade bem resolvida, enquanto o Ravioli de Cordeiro já entrega mais profundidade e sabor. Os pratos mais robustos — como o Parmegiana ou o Medalhão com Gnocchi — seguem uma linha de conforto e previsibilidade, com boa execução, mas pouca ousadia. As sobremesas acompanham esse raciocínio: agradáveis, corretas e sem surpresas. Funciona, e funciona bem, mas não surpreende.

Lá embaixo, na Bahia Marina, o Leto Gastronomia — sob o comando do chef Raphael Sepúlveda — o executivo revela uma cozinha que busca mais do que o básico e, quando arrisca, acerta. As entradas funcionam bem, especialmente o Bolinho de Peixe com Aioli de Ervas, o que entrega mais personalidade. Nos principais, há uma divisão clara entre o conforto: Massa com Fonduta e Picadinho, Copa Lombo com dijonnaise; e os momentos de maior expressão, como a Pescada ao Molho Iemanjá.
Este último prato, segundo o chef, é a interpretação de uma criação do mestre Laurent Suaudeau inspirada na moqueca. Ali, aparece equilibrada e bem construída, e ganha leveza (acredite) com o Risoto de Banana da Terra que traz um contraste, ao tempo em que parece que um foi feito para o outro. É um prato que sintetiza o melhor da proposta. O resultado é um executivo consistente, que deixa claro que sua força está justamente quando sai do lugar comum.

No Mistura Contorno, a lógica do executivo é outra. Sob a assinatura da chef Andréa Ribeiro, o menu assume formato de degustação contemporânea e eleva a experiência. A Lagosta com Creme de Abóbora e Azeite de Baunilha abre o percurso com técnica e refinamento. Entre os principais, o Linguine Mediterrâneo é direto, enquanto a Costela com Inhame Trufado é perfeito.
O destaque, no entanto, é o Gnocchi de Fruta-Pão — prato sazonal que retorna como símbolo de uma cozinha que valoriza ingrediente e território, em uma construção mais autoral e instigante. Aqui, o executivo deixa de ser rotina e passa a ser experiência. E cobra por isso — com coerência. Válido exclusivamente para almoço, de terça à quinta, valendo R$ 180 por pessoa, da entrada à sobremesa.

A conclusão é que, se há um ponto em comum entre casas tão diferentes, é a tentativa de reposicionar o almoço como experiência — ainda que em níveis distintos de ambição. Do conforto bem executado ao gesto autoral mais evidente, o menu executivo em Salvador mostra que pode ser mais do que uma solução rápida entre compromissos. Pode ser sim, uma extensão legítima da cozinha de cada casa. E, quando isso acontece, o trivial deixa de ser suficiente.
SERVIÇO:
@pastaemcasa
@casachalabi
@misturacontorno
@letogastronomia
@restaurantecarvao
