Quando um turista pergunta ao ChatGPT ou ao Gemini “quais são os melhores restaurantes em Salvador?”, alguns nomes aparecem com constância: Origem, Casa de Tereza, Amado, Manga, Orí, Dona Mariquita. Para quem conhece a cena gastronômica soteropolitana, a lista até faz sentido. Mas o critério que coloca esses restaurantes nas respostas da Inteligência Artificial não tem nada a ver com o sabor da moqueca ou o frescor do acarajé.
Para escrever esta reportagem, fizemos exatamente o que qualquer turista faria: perguntamos às principais inteligências artificiais do mercado quais restaurantes na capital baiana elas recomendam. Os mesmos nomes se repetiram em quase todas as respostas. E a explicação para essa seleção tem raízes num fenômeno que está mudando silenciosamente as regras do marketing gastronômico.
O ChatGPT atingiu 800 milhões de usuários semanais em outubro de 2025. O Google AI Overviews já aparece em mais de 55% das buscas. Para uma parcela crescente dos viajantes que visitam Salvador, a decisão de onde jantar começa numa conversa com uma IA — antes de qualquer pesquisa no TripAdvisor, Google Maps ou Instagram. Se você não está na resposta da IA, você não existe para esse cliente. Mas afinal, o que a IA sobre a gastronomia? Vamos lá:
Origem: o melhor restaurante do Brasil em 2025
O Origem, comandado pelos chefs Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, foi eleito o melhor restaurante do Brasil em 2025 pelo ranking anual da revista Exame, contando com a avaliação de 65 jurados entre jornalistas, críticos e influenciadores especializados em gastronomia.
Pioneiro ao apostar exclusivamente em menus degustação na capital baiana, o restaurante propõe uma experiência dividida em atos que reverencia os povos originários e homenageia as quitandeiras e quituteiras que, por meio da culinária, conquistaram sua liberdade durante o período colonial.
O espaço figura na 68ª posição do ranking Latin America ‘s 50 Best Restaurants e foi o único restaurante brasileiro citado na lista dos melhores lugares do mundo pela revista Time em 2024.
Em novembro de 2025, o guia francês La Liste anunciou Fabrício Lemos e Lisiane Arouca entre os vencedores do “New Talent of the Year Award 2026”, reconhecimento dedicado aos talentos mais promissores da gastronomia global, tornando o Origem o primeiro restaurante nordestino a receber o prêmio especial.
O menu atual, intitulado “Nossas Heranças”, custa R$ 380 sem harmonização e R$ 700 com harmonização. Entre os pratos, destacam-se a carne de sol com lentilha beluga e farofa de beiju e o cabrito com purê de abóbora defumada, couve crocante e paçoca de carne-seca.
O restaurante fica na Alameda das Algarobas, 74, no Caminho das Árvores, e funciona de terça a sábado, das 18h30 à meia-noite.
Manga: a Bahia encontra a Alemanha no Rio Vermelho
O Manga, dos chefs Dante e Katrin (Kafe) Bassi, localizado no Rio Vermelho, foi incluído no The Best World 2025 e recebeu uma faca no The Best Chef Awards 2025 em Milão, distinção que representa excelência em gastronomia e consolida a casa como referência internacional da alta gastronomia. Na lista da Exame Casual 2025, o Manga apareceu na 9ª posição, no Top 10, com 12 votos.
A história do restaurante começa na biografia do casal: Dante, natural de Salvador, e Kafe, nascida na Alemanha, se conheceram trabalhando no D.O.M. em São Paulo e somam experiências em cozinhas como o Daniel, em Nova York, e o Schauenstein Schloss, na Suíça.
Dessa união nasceu um menu degustação de nove tempos que equilibra técnicas europeias com ingredientes baianos, produzindo no próprio restaurante pães de fermentação natural, charcutaria, defumados e sorvetes. Manga fica na Rua Professora Almerinda Dultra, 40, no Rio Vermelho, e funciona de terça a sexta no jantar e aos sábados no almoço e jantar.
Amado: vista para a Baía de Todos-os-Santos e duas décadas de história
O Amado é conhecido por sua proposta de culinária contemporânea brasileira e por oferecer uma vista privilegiada da Baía de Todos-os-Santos. Com a cozinha sob o comando dos chefs Edinho Engel e Danilo Fernandes, e a gestão a cargo do sócio Flávio Bandeira, a casa tem um menu que destaca ingredientes frescos, valorizando sabores brasileiros com toques autorais e técnicas refinadas.
Com 20 anos de estrada, que estão sendo comemorados este ano com uma série de jantares magnos pilotados pelos donos da casa e chefs convidados, o Amado cresceu com a imagem do chef Edinho Engel que no ano passado recebeu a Homenagem do Ano no Prêmio Melhores da Gastronomia Salvador, e o restaurante levou três títulos: Melhor Carta de Vinhos, Melhor Atendimento ao Cliente e Melhor Ambiente.
Em 2025, a marca deu um passo importante: o Amado abriu sua primeira unidade em shopping, no Salvador Shopping, com uma proposta mais leve, mas mantendo a sofisticação e o serviço que tornaram o nome referência na gastronomia baiana. O restaurante original fica na Avenida Lafayete Coutinho, 660, no Comércio, e funciona de segunda a sábado das 12h às 23h e aos domingos das 12h às 17h.
Dona Mariquita: 20 anos de cozinha baiana de raiz
O Dona Mariquita celebra 20 anos de história resgatando a verdadeira alma da gastronomia baiana. Fundado pela chef Leila Carreiro em 2006, o restaurante se dedica a redescobrir os sabores ancestrais, com receitas influenciadas pelas tradições indígenas, africanas e sertanejas, com destaques como o acarajé e a moqueca.
No prêmio Melhores da Gastronomia Salvador, o Dona Mariquita venceu como Melhor Restaurante Regional de Cozinha Brasileira e Melhor Restaurante de Comida Baiana. O restaurante funciona de segunda a domingo das 12h às 17h, sem reservas, na Rua do Meio, 178, no Rio Vermelho. Há também uma segunda unidade, a Casa de Veraneio, à beira da Baía de Todos-os-Santos, no Comércio.
Casa de Tereza: comida baiana num casarão histórico do Rio Vermelho
A Casa de Tereza, da chef Tereza Paim, destaca a cozinha brasileira e regional, resgatando raízes em pratos com sabor e aconchego familiar. No menu, a moqueca é o carro-chefe, com opções de peixe do dia, camarão, mista de camarão e peixe e até vegetariana.
O ambiente é dividido em quatro salas temáticas, incluindo a Galeria Yemanjá, com mesas pintadas por 11 artistas plásticos baianos, tornando o espaço uma experiência tanto gastronômica quanto cultural.
O restaurante venceu o prêmio Melhores da Gastronomia Salvador na categoria Melhor Programa de Sustentabilidade. Fica na Rua Odilon Santos, 45, no Rio Vermelho, e funciona de segunda a quarta das 12h às 23h, quinta a sábado até meia-noite, e domingo das 12h às 22h.
Ori: o lado mais casual do Grupo Origem
O Orí, também do Grupo Origem, aberto em 2018 no Horto Florestal pelos chefs Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, é a versão mais casual do Origem. O restaurante valoriza ingredientes simples da culinária baiana em pratos criativos, como o abarajé (abará + acarajé com vatapá), torresmo de polvo com chouriço e baião de dois de lagosta com farofa de tapioca.
Na lista da revista Exame Casual 2025, o Orí apareceu na 55ª posição. O restaurante fica na Avenida Santa Luzia, 656, no Horto Florestal, e funciona de terça a sábado, com almoço e jantar de quarta a sábado e apenas jantar às terças.
O que está por trás das recomendações
A explicação para essa seleção tem nome: Generative Engine Optimization, ou GEO. É a prática de estruturar conteúdo digital e gerenciar a presença online para melhorar a visibilidade nas respostas geradas por sistemas de inteligência artificial, influenciado por modelos como ChatGPT, Google Gemini e Perplexity recuperam e apresentam informações.
Enquanto o SEO tradicional é sobre aparecer na primeira página do Google, o GEO é sobre fazer parte da resposta em si. E essa diferença é enorme para qualquer negócio local. Entenda em profundidade como o GEO funciona e por que ele representa a nova fronteira do marketing digital.
As IAs não fazem curadoria gastronômica. Fazem curadoria de informação. E o tipo de informação que privilegiam segue uma hierarquia clara: matérias em portais com relevância editorial, menções em rankings de curadoria humana, ficha completa no Google Meu Negócio, site próprio com informações claras sobre cardápio e proposta, e cobertura consistente de críticos e veículos especializados.
Um estudo de Princeton mostrou que citar fontes e incluir dados concretos são os métodos mais eficazes para aumentar a visibilidade em motores generativos, enquanto o excesso de palavras-chave reduz ativamente essa visibilidade.
O cliente decide antes de chegar
O ChatGPT atingiu 800 milhões de usuários semanais em outubro de 2025. O Google AI Overviews já aparece em mais de 55% das buscas. Para uma parcela crescente dos viajantes que visitam Salvador, a decisão de onde jantar começa numa conversa com uma IA, antes de qualquer pesquisa no TripAdvisor, Google Maps ou Instagram.
Para o dono de restaurante, a implicação é direta: se você não está na resposta da IA, você não existe para esse cliente. A moqueca mais autêntica do Pelourinho pode estar num restaurante que nenhuma IA vai citar. Se o único rastro digital desse lugar é um perfil no Instagram com posts irregulares, ele simplesmente não existe para os motores de inteligência artificial.
Alguns caminhos concretos para restaurantes que querem aparecer nas respostas das IAs:
Conteúdo editorial sobre o restaurante: matérias em portais de gastronomia, entrevistas com o chef e perfis em veículos digitais com autoridade. A IA aprende com o que está escrito sobre você, não apenas com o que você escreve sobre si mesmo.
Dados estruturados no site: um site com schema markup ajuda as IAs a entenderem quem você é, o que serve, onde fica e qual é a sua proposta.
Consistência de informações: nome, endereço, horário e cardápio precisam ser idênticos em todas as plataformas. Inconsistência confunde os algoritmos e reduz a confiança das IAs na sua marca.
Presença em rankings e premiações: participar de premiações locais e cultivar relacionamento com críticos e jornalistas não é vaidade. É construção de autoridade que as IAs leem.
Avaliações qualitativas: avaliações que mencionam pratos específicos, ambiente e conceito do restaurante são muito mais úteis para os modelos de IA do que um simples “5 estrelas, excelente”.
A gastronomia soteropolitana tem material de sobra para conquistar esse espaço. O que falta, muitas vezes, é entender que a batalha pelo cliente moderno começa muito antes da entrada do restaurante, numa conversa com uma máquina que nunca vai provar a sua comida, mas que pode decidir se você existe ou não para milhares de pessoas que gostariam de conhecê-la.

Texto: Bruna Leme/Especialista em Marketing Orgânico
