Enquanto os grandes circuitos concentram multidões e grandes trios, o Carnaval de Salvador também se afirma, ano após ano, em territórios onde a festa acontece em outro ritmos. Nos bairros, palcos temáticos e circuitos alternativos, a folia se espalha por experiências mais próximas e sem o aperto característico da festa.
Entre essas alternativas, a mais famosa é o Circuito Batatinha — que liga o Terreiro de Jesus à Rua Chile — mantém sua vocação para um Carnaval mais tranquilo e profundamente enraizado na tradição baiana. Longe da lógica dos grandes carros de som, o percurso privilegia fanfarras, afoxés, blocos afro, sambas e pequenos grupos musicais, criando um ambiente onde famílias, moradores e turistas dividem o espaço em ritmo mais sereno.
É nesse cenário que manifestações como a Mudança do Garcia seguem reafirmando seu papel histórico. Realizado na segunda-feira de Carnaval (16), o desfile sai do bairro do Garcia em direção ao Campo Grande, reunindo irreverência, samba e crítica social desde a década de 1950. Sem cordas, o bloco Moraes & Moreira integra esse movimento de resistência cultural e participa do cortejo com repertório.
Palcos
Ainda no Centro Histórico, os palcos temáticos ampliam a pluralidade sonora da festa. O Palco Castro Alves se firma como ponto de encontros simbólicos, reunindo artistas de diferentes gerações e estéticas — do samba ao rock, da música afro-baiana à cena contemporânea. Nomes como Gerônimo, Baby do Brasil, Pepeu Gomes com Vivendo do Ócio, Luedji Luna, Larissa Luz, Majur, Afrocidade e Magary Lord ajudam a desenhar uma programação que dialoga tanto com a memória quanto com a renovação musical da cidade.
No Pelourinho, o Largo de Tieta recebe o Palco Axé Pelô, dedicado a celebrar o gênero que moldou a identidade do Carnaval moderno. Artistas que ajudaram a construir essa história dividem espaço com vozes que mantêm o axé pulsante, como Sarajane, Márcia Castro, Gilmelândia, Emanuelle Araújo, Ana Mametto e Bailinho de Quinta, em apresentações que reforçam o vínculo entre o bairro histórico e a música que projetou Salvador para o país.
A poucos metros dali, a Praça da Cruz Caída se transforma em território do samba. O Palco Arena do Samba presta homenagem aos 110 anos do gênero, reunindo nomes ligados à tradição e à renovação, como Gal do Beco, Banda Raça Pura, Edil Pacheco, Mônica Sangalo, Sambaiana e Gang do Samba, reafirmando o papel do ritmo como fundamento da cultura popular baiana.
Bairros
Fora do Centro, o Carnaval nos bairros também ganha força com propostas bem definidas. No Rio Vermelho, o palco montado no bairro reúne uma programação que transita entre orquestras, axé, samba e música afro-baiana, com atrações como Rumpilezz, Sarajane, Armandinho, Gerônimo, Ganhadeiras de Itapuã, Majur e Gabriel Mercury, sempre a partir do fim da tarde.
Já em Piatã, o tradicional Palco do Rock ocupa o Coqueiral da praia entre os dias 14 e 17 de fevereiro, mantendo viva a alternativa sonora da folia. Com acesso gratuito, o espaço reúne vertentes do gênero e nomes como Ratos de Porão, Vivendo do Ócio, Eskröta e Malefacto, consolidando-se como refúgio para quem prefere guitarras ao som dos tambores.
Entre bairros, palcos e circuitos alternativos, o Carnaval de Salvador revela uma face menos óbvia, mas igualmente potente: uma festa que se reinventa longe das maiores concentrações, preserva tradições e amplia a experiência da cidade para quem busca outros modos de viver a folia.
Foto: Paula Fróes/CORREIO
