Ler a frase O menino chutou a bola leva a uma imagem. Cada um forma a sua. De repente, uma vidraça quebrada. E é perfeitamente possível que essa imagem ilustre a ação, porque é uma consequência de um chute forte, por exemplo. Diverte, faz pensar, expande.
Quem explica é a artista visual e ilustradora baiana Flávia Bomfim, ganhadora do prestigiado prêmio Green Island pelo Nami Concours, da Coreia do Sul, com as ilustrações do livro O Adeus do Marujo (Pallas, 2022), sobre o marinheiro gaúcho João Cândido, líder da Revolta da Chibata. A história apresenta um delicado diálogo entre o sonho e a realidade através dos bordados de Flávia que remetem aos que João fez na prisão.

(Do livro O Adeus do Marujo, de Flávia Bomfim)
Imagine agora uma criança que, de tão crescida, não cabe mais no colo do pai. Como seria em desenho? Um homem alto, com cara de pinguim, segurando um pinguinzinho, com mãos e pés humanos. Ambos vestidos.
Essa foi a solução encontrada pelo artista visual e ilustrador Esteban Vivaldi, chileno criado na Itália e radicado em Salvador, onde mora desde 2014. As ilustrações da família-pinguim estão no livro Quando somos um só (Solisluna, 2021), publicado em parceria com o psicólogo baiano Alessandro Marimpietri.
“Quando esses dois elementos, imagem e palavra, trabalham juntos, para acrescentar um ao outro, e não repetir, é gerado um gatilho, uma tensão, que o jovem leitor vai perceber. Em geral, a criança olha as imagens, e o pai e a mãe leem. Enquanto ouve, os olhos dela seguem outro caminho, que vai se juntando ou se afastando da história contada em texto. Isso cria distâncias e aproximações, que estimulam a criatividade e a imaginação. Não é um prato feito. Precisa ter os ingredientes para a criança ‘cozinhar'”, explica Esteban. Ele costuma trabalhar com livros infantis e quadrinhos. Roma Negra, de 2023, também pela Solisluna, é uma carta de amor a Salvador. A imagem que abre este texto é do 2 de Fevereiro.
Entre Madri e a capital baiana, Flávia participa do movimento Ilustradores são Autores, que busca dar protagonismo ao autor/autora da ilustração tanto quanto ao autor da história. Ela é a criadora do Festival de Ilustração e Literatura Expandido (Filex), que reúne artistas do Brasil e do exterior, na capital baiana, para que, juntos, possam provocar o público a experienciar a relação entre a palavra e a imagem a partir de diversas linguagens: a do livro ilustrado, da arquitetura da cidade, das artes gráficas e das performances.
“Entendo o desenho como escritura, como expressão e narrativa de conhecimento”, comenta Flávia, que é psicóloga, mas nunca deixou de desenhar e se apaixonou pelo livro ilustrado. Embora esse já seja um conceito mais moderno do que “livro com ilustrações”, ela se identifica com os estudos sobre álbum. “Lembra álbum de fotografia, álbum de música… Um espaço em branco para compor. Tem a ver também com leitura dinâmica e com as várias possibilidades.”
Não só ter visibilidade, mas outra luta dos ilustradores é sobreviver no mercado de Salvador. Esteban cita a falta de editoras, de distribuidoras, de jornais, revistas e livrarias na cidade, sem falar do avanço das gigantes virtuais. Flávia pede mais políticas públicas, apoios e editais, porque o livro ilustrado é caro e ainda é necessário pensar nos demais profissionais envolvidos no ecossistema, como mediadores de leitura, professores, bibliotecas etc.
Liberdade
A ilustradora Inara Negrão, baiana que mora em São Paulo e trabalha há 15 anos com design de conteúdo e informação, lembra que o ilustrador é, por natureza, um trabalhador freelancer e que poucas empresas têm esses profissionais fixos em seus quadros. “Por isso, não faz sentido estar preso ao mercado regional. O ilustrador é livre para atuar em qualquer território onde sua linguagem seja pertinente.”
Além dos livros ilustrados, quadrinhos, filmes de animação ou murais, ela cita a ilustração como parte de storyboards de cinema ou propaganda, de identidades visuais de marcas ou como componentes complementares em produtos que vão de embalagens a estampas têxteis. No momento, ela finaliza um livro do artista, carnavalesco e serígrafo baiano Alberto Pitta.
Inara faz questão de citar a Escola de Belas Artes da Ufba, um epicentro e referencial com a militância do professor Taygoara Aguiar, que coordena um núcleo premiado de animação, o Mirá; a revista Miolo; e a editora Tiragem. “Trabalhamos com talentos que saíram daí: Maíra Moura Miranda, Aju Paraguassu, Emanuele Rosa e Isabella Coretti.
“Outra experiência bonita foi a transformação do bairro da Gamboa. A comunidade passou por uma intervenção artística do Musa, um grupo de ilustradores que usa o grafite como linguagem. As obras ocuparam as paredes do lugar, mas também inspiraram festivais como o Tem Arte nas Ruas (2025), que levou essa ideia a outros bairros, e seus ilustradores estão atuando no mercado para além do grafite estrito.”

(Inara Negrão, especialista em infografia, direção de fotografia e ilustração)
O caminho inverso percorrido por Inara, de São Paulo a Salvador, ainda na década de 1970, foi feito por Enéas Guerra. Formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), o artista tem mais de 50 anos dedicados ao design, à ilustração e às artes gráficas. Entre os inúmeros trabalhos que realizou, têm destaque as edições de arte de vários livros do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, sendo coautor de dois livros de lendas dos deuses africanos – Oxóssi o Caçador e Lendas dos Orixás, publicados em 1981.
Enéas defende que o ilustrador que está começando deve buscar formação além da Bahia, de preferência no exterior, onde moram, inclusive, dois de seus quatro filhos, também artistas. O objetivo é ter uma vivência mais abrangente. Mas ele lembra que o sucesso depende também do empenho de cada um. “Tem que virar noite se aprimorando, tem que se dedicar. Gostar do que faz e se empenhar”, diz o autor de Vaporzinho, A Ialorixá e o Pajé (último livro de Mãe Stella de Oxóssi), Treze Contos Reais e A União Faz a Colcha. Depois de fundar a editora Solisluna com a mulher, Valéria Pergentino, e aos 74 anos, hoje ele se debruça sobre a doçura dos livros infantis. Ilustrando.
(Tharsila Prates)









