Quando um restaurante anuncia uma “viagem pela Itália”, nossa expectativa vai às alturas. No novo cardápio do Lotti Cucina Italiana, apresentado na última terça-feira, na unidade da Bahia Marina, o chef Daniel Buzzi propõe exatamente isso: um percurso que atravessa regiões e receitas clássicas da gastronomia italiana. Mas, à mesa, o trajeto revela algo um pouco diferente — menos uma reprodução fiel da tradição e mais uma interpretação contemporânea, com acertadas adaptações que aproximam os pratos do gosto local.

Mas a identidade, o DNA da gastronomia daquele país, cuja reputação mundial foi construída sobre um princípio quase austero: poucos ingredientes, técnica precisa e respeito absoluto à tradição, aparecem lá, nas novas criações incorporadas ao cardápio, onde essa lógica aparece, embora nem sempre intacta.

A proposta do chef Daniel Buzzi, nascido na região da Lombardia, é conduzir o comensal por diferentes regiões da Itália. No papel, a narrativa é sedutora: Piemonte, Calábria, Roma e Lombardia aparecem como paradas dessa viagem gastronômica. No prato, o percurso revela uma cozinha que alterna fidelidade e liberdade criativa.

O vitello tonnato, clássico piemontês, abre o roteiro. A carne de black angus, cozida lentamente e servida em fatias finas, chega à mesa com textura correta e molho de atum equilibrado. É um prato bem executado, embora menos delicado do que as versões mais ortodoxas que fazem desse antipasto um ícone da elegância italiana.

Entre as massas, o rigatoni alla vodka, prato que parece ter voltado à moda nos restaurantes italianos pelas bandas de cá do Atlântico, aposta na intensidade. O molho cremoso de tomate e grana padano ganha protagonismo dos camarões e da induja calabresa. “A induja é um embutido apimentado de porco com textura de patê, típico da Calábria, e cada família da região tem a sua receita autoral. A pimenta era a solução para conservar os alimentos das famílias menos abastadas”, explica o chef.

O resultado é um prato vigoroso, saboroso, ainda que mais exuberante do que a simplicidade que consagrou tantas receitas italianas. Vale observar que é justamente quando se aproxima dos clássicos absolutos que o cardápio assume suas maiores licenças. O cacio e pepe, símbolo da cozinha romana em sua forma mais minimalista — massa, pecorino e pimenta — aparece acompanhado de filé mignon e molho demi-glace. A intervenção muda radicalmente o espírito do prato: sai a austeridade romana, entra uma leitura mais rica, quase francesa.

Outros momentos do cardápio mostram uma direção ainda mais interessante: quando o restaurante — cujo primeiro menu foi criado pelo chef brasileiro e cofundador da casa, Manoel Coelho, morto em 2024 —assume o diálogo com o Brasil. O robalo com gnocchi de banana-da-terra, que volta ao menu, cria uma ponte convincente entre ingredientes italianos e nordestinos. Talvez um dos pontos em que o Lotti encontra sua identidade mais clara.

O gnocchi de abóbora com fonduta de taleggio, finalizado com trufas, segue uma linha clássica de contrastes entre doçura e intensidade, embora o uso de trufas reflita uma tendência recorrente da gastronomia contemporânea de recorrer ao ingrediente como atalho para sofisticação. Mas Buzzi sabe o que está fazendo.

Nas sobremesas, vale destacar a Torta Basca Romeu e Julieta, um primor que, assim como outras gulodices, leva a assinatura da chef Amanda Grezzana que assumiu a confeitaria da casa.
No discurso que acompanha o lançamento do novo menu do restaurante de Múrcio Dias, cada prato conta uma história da cultura italiana. Mas na prática, o cardápio parece contar outra narrativa: a de uma cozinha que parte da tradição, mas não hesita em transformá-la. E acerta! Diria que não é exatamente a Itália clássica — mas uma versão possível dela, reinterpretada a partir do Brasil. Curiosamente por um talentoso cozinheiro italiano

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