A Rua das Angélicas, na Pituba, em Salvador, guarda um endereço que parece deslocado do entorno. No fim da via, uma casa de fachada laranja funciona como um pequeno portal para Minas Gerais — daqueles que dispensam viagem longa e fazem o trajeto inteiro acontecer no prato.
É ali que funciona o Taiobha, restaurante mineiro que se tornou um achado para quem já conhece — e sente falta — da cozinha do estado. Mais do que uma proposta temática, a casa entrega uma experiência que passa pelo ambiente, pelo atendimento e, sobretudo, pela comida.
O espaço, inclusive, está longe de seguir o padrão tradicional de restaurante. Com cara de casa, o Taiobha aposta em uma atmosfera acolhedora desde a chegada. A condução de Coração, chef que acompanha de perto o salão e o serviço, reforça essa sensação. O nome não parece coincidência: há cuidado em cada detalhe, e isso se reflete diretamente no que chega à mesa.
Antes mesmo dos pratos principais, as entradas já dão o tom da experiência. O Torresmo de Barriga, chamado com bom humor de “barrinha de cereal de mineiro”, é um dos destaques. Feito com corte suíno vindo de Minas, o petisco chega em pedaços generosos, com camadas bem definidas de carne, gordura e pele. Frito no ponto certo, entrega casquinha crocante por fora e interior macio, suculento e levemente amanteigado. A mandioca cozida que acompanha fecha o prato com conforto e equilíbrio.

Torresmo de Barriga do Taiobha. Foto: Reprodução
Outra escolha certeira é o pastel de angu. Com massa de fubá mais encorpada que a tradicional, ele aparece dourado e crocante por fora, enquanto o interior mantém uma textura macia, quase cremosa. O recheio de carne suína é suculento, bem temperado e com gordura na medida — combinação que funciona sem esforço.
O cardápio de entradas, aliás, é daqueles que testam a disciplina de qualquer mesa. Bolinho de feijoada, caldo de feijão “bebum” e pão de queijo recheado com pernil são algumas das opções que fazem pensar duas vezes antes de avançar para os principais. Ainda assim, vale guardar espaço.

Pastel de Angu do Taiobha. Foto: Reprodução
Entre os pratos mais representativos da casa, a canjiquinha com costela suína se impõe. A carne chega extremamente macia, praticamente desmanchando, envolvida em um caldo encorpado e cheio de sabor. A canjiquinha, cremosa e reconfortante, absorve bem o tempero e traz o leve dulçor característico do milho quebrado. O arroz branco equilibra o conjunto, enquanto o tropeiro mineiro adiciona textura e intensidade.

Canjiquinha de Costela Suína do Taiobha. Foto: Reprodução
Outro clássico que merece atenção é o tutu à mineira. O feijão, flambado na cachaça, ganha profundidade de sabor e um aroma sutil que se integra ao prato. Acompanhado de costelinha suína frita, crocante na medida, e arroz, forma uma combinação que traduz bem a essência da cozinha mineira: robusta, acolhedora e direta.

Tutu à mineira do Taiobha. Foto: Reprodução
Quando o assunto é bebida, o Taiobha também mantém a coerência da proposta. A carta reúne rótulos tradicionais de cachaças mineiras, como Boazinha e Velha de Januária, que atendem bem a quem prefere uma boa dose para acompanhar a refeição.
Sem recorrer a firulas ou releituras desnecessárias, o Taiobha aposta na força da tradição. No meio da Pituba, entrega uma cozinha que conforta, sustenta e cria memória — como toda boa comida mineira costuma fazer.
Autor: Wendel de Novais
Foto: Reprodução
