“Se você se sente mal em um lugar, o que você faz? Vai embora! Aqui não. Quanto mais o pessoal vem, mais fica. Aqui é casa de mãe”, diz Edson Silva, 70 anos, artífice da Ladeira da Conceição da Praia, a Ladeira dos Arcos, no Centro Histórico de Salvador. Sentado em um tamborete na calçada que fica de frente para o arco 18, onde trabalha, o ferreiro mostra no sorriso e na fala o carinho que tem pelo local, onde chegou com 9 anos e permaneceu, entre idas e vindas, por 40, em uma conta apressada de cabeça.
A pressa para a resposta contrasta com a característica do trabalho no local. Não que seja devagar — longe disso. Nos arcos, no entanto — seja nas marmorarias ou nas forjas, onde trabalham os ferreiros — a produção “fordista”, acelerada e repetida, não encontra lugar. Na construção de grades, esculturas, pias e móveis, o cuidado, a perícia e o tempo dos artesãos são protagonistas. O que se faz ali não se curva à correria cotidiana do comércio que toma a cidade quase que por completo.
“Quando você quer uma coisa de ferro ou mármore que exige um certo zelo e um certo manuseio, você só encontra na Ladeira da Conceição. Quando quer arte ou algo dificultoso, você vem aqui, porque qualquer artífice daqui tem capacidade de fazer essas coisas. A tecnologia veio para avançar, mas ela não recupera nada”, afirma Edmilson Rodrigues, 74, outro ferreiro que é filho da Ladeira. Entre uma martelada e o derretimento do ferro para o molde, o artífice explica a resistência da ladeira, que é referência nos seus serviços.

Edmilson molda ferro pontas para marteletes no arco 16. Foto: Wendel de Novais
Segundo o próprio Edmilson, a associação dos artífices da cidade tem 96 trabalhadores registrados e espalhados pelos quatro cantos da capital. Destes, 15 estão nos arcos, que são numerados de 2 a 30, pulando os números ímpares. “Eu acho que é porque o outro lado da rua era ímpar e aqui era par”, palpita o ferreiro. Na hora de falar do que o faz permanecer na oficina do arco 16, onde fabricava ponteiros para martelete enquanto conversava com a reportagem, não sobra espaço para a dúvida.
Para Edmilson, não há melhor lugar do que a Ladeira, que resiste ao tempo e se mantém como símbolo em um período em que o “antigo” anda esquecido. “Eu tenho cinquenta e sete anos de profissão. Conheci isso aqui quando existiam três polos em Salvador: o financeiro, que era no Comércio; o de azulejos, que era a Rua Manoel Vitorino; e o de serralheria, que ainda é a Ladeira da Conceição”, celebra o ferreiro, que atribui a resistência do local aos Pretos Velhos e Exus que protegem os profissionais e os arcos que os abrigam.
Proteção que foi posta à prova em 2014, quando, de uma hora para outra, os trabalhadores receberam um ofício que dava 72 horas de prazo para que deixassem o local. Na época, o documento foi entregue pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom) a pedido do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan-BA). O texto justificava a saída dos profissionais para reforma e transformação dos arcos em residências artísticas.
“Vou te falar que, na época, a gente nem entendeu direito de onde vinha isso. Quando a gente ia no Iphan, jogavam para a prefeitura e vice-versa. Só sei que todo mundo se uniu e contou com a ajuda das comunidades vizinhas para manter a nossa aqui”, lembra Simone Venâncio, 45 anos, citando a participação dos moradores da Gamboa, do 2 de Julho e do Comércio nos atos de pressão popular que não só espantaram o ofício, como resultaram em uma reforma em 2020.

Ladeira da Conceição antes da reforma dos arcos. Foto: Betto Jr./Arquivo CORREIO
Simone, que foi para a Ladeira com o pai e já trabalha ali há 22 anos, conta que o processo rendeu até um segundo batismo para os profissionais. “Depois daquilo, começaram a chamar a gente de artífice. Antes, era marmorista e ferreiro mesmo. Botaram logo um nome bonito”, brinca ela. Sozinhos ou reunidos, os profissionais que resistem na atividade não tiram o bom humor de nenhuma conversa. Juntos, então, é que a coisa vai para um caminho que só é possível entre pessoas muito próximas.
“Eu não me vejo fora daqui, é um espaço que eu gosto de ficar. A comunidade em si, a gente aqui, é uma família. Se um de nós sentir uma dor, todos estão aqui para acolher por mais picuinha que exista, que é de família. Eu falo direto: a gente chega de manhã e só sai de noite. Só vamos em casa tirar um cochilo e daqui a pouco a gente volta. Quer dizer, aqui é a nossa casa, sabe?”, explica Simone, ao falar do senso de comunidade do local.
Além de se ver dessa forma, os artífices são reconhecidos assim por quem trabalha e vive na região. “Se a gente vai no Dois de Julho, na Gamboa, no Comércio, na Barroquinha e em outros lugares, todo mundo nos conhece. Eles já falam assim: ‘Ali é o pessoal do Arco. Ali é a marmorista da Ladeira, ali é o ferreiro’. O Centro se conhece, sabe a função de cada qual aqui. Mais do que uma profissão, é um modo de vida”, completa Simone.
A rotina segue marcada por desafios impostos pela insegurança e pela pouca circulação de clientes na parte baixa da cidade. Entretanto, a clientela fiel, construída ao longo dos anos, e o reconhecimento da qualidade do trabalho são combustíveis para a continuidade. Entre encomendas que chegam por telefone e indicações que atravessam gerações, os artífices garantem que nada pode parar o seu trabalho.
Hoje, os Arcos da Conceição permanecem como um dos poucos pontos onde o artesanato tradicional respira e se reinventa com as mãos que moldam ferro e pedra. Ali, o patrimônio não é apenas arquitetônico — é humano. Cada peça que ganha forma nas marmorarias e forjas carrega, junto ao material, a história de um lugar que insiste em viver.
(Wendel de Novais)
Foto em destaque: Bruno Concha/Secom


