Entre as tendências em arquitetura, decoração e paisagismo apresentadas na CASACOR Bahia deste ano estavam três obras – dois quadros e uma mesa – com uma técnica de linha sobre vidro exclusiva de uma artista: a baiana Angela Cosete, 70 anos. Obras que ocupam eventos e feiras prestigiados na Bahia e no Brasil, mas que começaram a ser desenvolvidas ainda na infância da sua criadora, que é natural de Vitória da Conquista, no sudoeste do estado.
Irmã de dez irmãos, sendo seis artistas, Angela se vê provocada e fascinada pela criação desde os primeiros passos. “A gente sempre brincava e criava coisas — criando brincadeiras, criando brinquedos — e a gente cresceu nesse ambiente, entendeu? Com artesanato, arte e música. Fazíamos nossos próprios brinquedos por uma questão de necessidade que, depois, passou a ser o que fazemos na vida toda”, lembra ela.
Antes de unir linha e vidro em obras cobiçadas, no entanto, Angela trabalhou por anos com bijuterias até desenvolver uma Lesão Por Esforço Repetitivo (LER). Depois de fechar a loja que mantinha em Itaberaba, para onde se mudou e vive até hoje, foi viajando com um dos seus irmãos que ela começou a trocar a repetição pela inovação, ainda no ano de 2002. A conversa que motivou a mudança surgiu diante de garrafas forradas com barbantes.
“Fomos para uma feira em Pernambuco. Lá tinha umas garrafas forradas com barbante e comentei com ele: ‘Poxa, todo mundo forra garrafa com barbante. Todo mundo quer fazer a mesma coisa. Eu não gosto disso’. Aí meu irmão falou assim: ‘Então crie uma coisa em cima disso aí’. Eu falei para ele: ‘Me aguarde’. Ele me desafiou, né? Aí ele disse: ‘Por que você não pega um vidro e faz um quadro? Faz uma coisa diferente”, recorda a artista.

Angela trabalha com técnica de linhas sobre vidro
Dez anos separam a provocação do momento em que Angela acreditou que a técnica chegou ao nível de ganhar o mundo. Um processo que foi aperfeiçoado até 2012 e que consiste em um desenho feito no verso do vidro/tela que antecede um processo minucioso de colagem das linhas finas que pode levar semanas até se transformar nas telas e mesas que encantaram arquitetos, decoradores e paisagistas de toda a CASACOR Bahia.
“Eu risco o que eu quero e vou dando formas e um colorido com as linhas. Vou combinando as linhas, as cores e depois vem o resultado. É uma coisa que eu não sei nem explicar porque, a depender do desenho, às vezes eu acho que sei o que quero fazer, mas já sai outra coisa. E se tiver um erro, eu não tenho como apagar, entendeu? Esse erro já me transforma em outra coisa — totalmente diferente do que eu ia fazer”, detalha
As obras da artista podem ser encontradas em diferentes pontos de Salvador e da Região Metropolitana. Ela integra o Artesanato da Bahia, com peças expostas na loja do Porto da Barra; participa também da loja da Sesol, no Shopping Salvador, onde mantém parte de sua produção disponível ao público; e marca presença na loja colaborativa de Lauro de Freitas, localizada no Shopping Barra. Além desses espaços, suas criações podem aparecer em eventos e, claro, no Katô Ateliê, loja que ela mantém em Itaberaba.

Angela Cosete com uma de suas obras
A presença na Sesol já entrega uma prática empreendedora de Angela que é colaborativa. Junto a outros artistas do estado, ela opta por expor suas obras em lojas coletivas e participar de eventos com colegas como o Festival Nacional de Artesanato da Bahia (Fenaba), que aconteceu em outubro na Arena Fonte Nova. A parceria com o Sesol, em específico, dá continuidade a um processo que começou quando a artista não tinha nem plena segurança da técnica exclusiva que ainda estava desenvolvendo.
“Primeiro eu comecei na Sesol e meus quadros ainda deixavam muito a desejar, entendeu? Porém, eles tiveram fé em mim, aceitaram meus quadros e me incentivaram. Assim, eu fui aperfeiçoando. Depois fui para o Artesanato da Bahia e a entrada nesses lugares me deu um força maior porque as encomendas que eu tenho são muito dessas lojas”, explica Angela.
A confiança recebida nos primeiros anos, somada ao olhar atento de quem acompanha sua trajetória, acabou fortalecendo o processo criativo da artista. Hoje, Angela reconhece que cada peça exige mais do que técnica: demanda paciência, tempo e entrega total ao gesto manual que sustenta sua obra. Entre encomendas que chegam de diferentes lugares, ela segue ampliando o alcance de sua técnica exclusiva sem abrir mão do respeito ao próprio tempo.
“Eu não tenho pressa para trabalhar. É uma criação que exige muita atenção. Eu não posso errar. As encomendas mais comuns são de quadros 40 por 30 porque são menores e dá para levar para viagem. E se for um quadro pequeno, eu levo dois, três dias. O certo é que não falta encomenda, né? Tem sempre algo novo que chega e eu preciso trabalhar, o que é muito bom, claro”, conta Angela.

Obra de Angela Cosete
Além do cuidado com cada etapa da produção, a artista também explica que os valores variam de acordo com o tamanho e a complexidade das peças. Os quadros mais simples, no tamanho 40 por 30, custam a partir de R$ 200. Já obras maiores — incluindo telas amplas e mesas feitas com a técnica exclusiva — precisam ser orçadas diretamente com a artista, já que cada uma exige uma quantidade distinta de materiais, tempo e detalhamento.
Com a combinação entre técnica, sensibilidade e um estilo que já se tornou marca registrada, Angela segue consolidando sua presença no cenário artístico baiano. Suas peças, que carregam identidade e memória em cada linha e relevo, alcançam cada vez mais admiradores e novos espaços. E, enquanto o trabalho segue ganhando projeção, ela mantém o mesmo compromisso que a move desde o início: transformar matéria-prima em expressão do seu jeito.
Fotos: Divulgação


