O retorno de Vavá Botelho ao Festival de Parintins marca um novo capítulo na relação do fundador do Balé Folclórico da Bahia com o maior espetáculo folclórico da Amazônia. Depois de atuar como jurado, dirigir artisticamente o Boi Garantido no título de 2011 e colaborar novamente com a agremiação em 2012, ele volta ao Bumbódromo como diretor artístico do espetáculo de 2026 e leva, pela primeira vez, a companhia baiana para a arena.
A apresentação, embalada pela toada Quilombo da Baixa, reunirá o Balé Folclórico da Bahia e cerca de 120 indígenas de diferentes comunidades em uma performance que busca aproximar as ancestralidades africana e indígena sem perder a identidade de cada tradição. Em entrevista, Vavá falou sobre a evolução do festival, os cuidados para evitar estereótipos e os desafios da montagem.
Ao comparar o Parintins de hoje com o que conheceu há quase duas décadas, Vavá afirma que o festival vive um momento de amadurecimento. “É uma mudança radical. Mudou desde os espaços de ensaio e a estrutura física até as questões técnicas de iluminação, sonorização e do próprio Bumbódromo. Houve um crescimento muito grande e uma profissionalização dos dois bois”, afirma.



Segundo ele, uma das transformações mais importantes aconteceu nos bastidores, com a criação de oficinas para formar novas gerações de artistas responsáveis por figurinos, adereços e alegorias. “Eles passaram a ensinar esse ofício durante o ano inteiro. Muita gente morreu na pandemia e, sem esse trabalho de formação, essa tradição poderia acabar se perdendo”, avalia.
Embora o espetáculo leve manifestações populares para um grande palco, Vavá diz que a principal preocupação é evitar distorções culturais. “O risco sempre existe. Quando você tira uma manifestação do seu ambiente natural e leva para a cena, ela já passa a ser um espetáculo artístico. O cuidado é não caricaturar e não deturpar essa manifestação”, explica.
Ele afirma que esse princípio acompanha o trabalho desenvolvido pelo Balé Folclórico da Bahia desde a sua fundação. “Uma das coisas que mais chama a atenção dos críticos de dança no mundo inteiro é justamente isso: conseguimos transformar essas manifestações em espetáculo contemporâneo sem perder a raiz e a tradição.”
Para o diretor, o encontro entre as culturas baiana e amazônica acontece de forma natural, já que a presença da ancestralidade africana também faz parte da história da região Norte. “As pessoas não imaginam, mas aqui existe uma tradição afro-brasileira muito forte, trazida principalmente pelos nordestinos durante o ciclo da borracha. A própria toada que vamos apresentar fala do Quilombo da Baixa, um quilombo afro-indígena reconhecido no Brasil.”
O espetáculo, segundo ele, pretende evidenciar justamente essa conexão. “O Balé Folclórico vai dançar no centro da arena e teremos três grupos indígenas ao nosso redor, além de cerca de 120 representantes de povos originários participando da cena. Vai ser uma comunhão entre a ancestralidade africana e indígena. Estou muito curioso para ver o resultado.”
A produção também exigiu uma logística incomum. Como muitos participantes vivem em comunidades afastadas de Parintins, até a terça-feira (23), realizados de forma descentralizada. A coreografia foi criada em Salvador com representantes indígenas, que retornaram às suas cidades para multiplicar o trabalho com seus grupos.
“Cada um levou a coreografia para sua comunidade. A gente filmava, fazia ajustes, enviava de volta e eles ensaiavam lá. Só agora vamos reunir todo mundo pela primeira vez. Tem gente que levou até três dias de barco para chegar a Parintins. Será nosso primeiro ensaio com os 120 indígenas juntos”, revela.
Fotos: Divulgação
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