Mesmo que seja mais conhecida pelos antiquários, a Rua Ruy Barbosa foi — e ainda é — o centro de uma atividade que, por coincidência ou não, também se torna cada vez mais rara: a marcenaria. Mais para o fim da via, quase na transversal com a Rua do Tira-Chapéu, as oficinas mantêm viva a tradição de um ofício que, no século passado, se alimentava da procura constante de clientes atraídos pelas lojas de antiguidades que deram fama à rua.
“Isso aqui sempre foi a Rua dos Antiquários, mas é dos marceneiros também. Então, se alguém vinha aqui e comprava algum móvel antigo que precisasse de uma restauração, saía do antiquário e entrava na porta do lado, que dá aqui na oficina”, lembra Renilson Bispo, 51 anos, que trabalha como marceneiro na Ruy Barbosa há 34 anos. No auge das antiguidades, as oficinas se beneficiavam dessa “economia circular” da rua. Hoje, no entanto, o cenário é outro.

Renilson Bispo
Quem chega às marcenarias não vem mais por indicação de outro comércio, mas pela raridade do serviço. É o que explica Claudimiro Monteiro, 54, conhecido como Mestre Bia. “A gente é conhecido no mundo todo. Vem gente de Salvador, principalmente dos bairros nobres, mas chega também de São Paulo, de outros estados e até da Europa, como da Itália”, conta ele, que atua na Ruy Barbosa há 37 anos.
Por definição, o marceneiro é o profissional especializado na fabricação, reparo e restauração de móveis de madeira. Mas, com o tempo, o termo passou a incluir quem trabalha com compensado e MDF. Por isso, Mestre Bia prefere outro título. “Eu digo que sou restaurador. Eu restauro o que tem madeira de lei e faço réplicas de móveis antigos com madeira de demolição, que é material raro”, explica.

Baú confeccionado por artesãos da Ruy Barbosa
Nas oficinas da Ruy Barbosa, madeiras de lei se transformam em verdadeiras obras de arte, moldadas com precisão e paciência por mãos experientes. A marcenaria, ali, ultrapassa o limite do ofício técnico e se aproxima da arte: cada peça carrega a marca do criador e o respeito à matéria-prima.
Como define Alan Ricardo Santos, 42, que deixou Amargosa para atuar na rua há 23 anos. “Nós somos artistas. Transformamos madeira em beleza e memória. Não temos o prestígio das outras artes, mas nossos clientes nos veem assim”.
Do século XX, quando essa arte tinha mais prestígio, os marceneiros mais antigos guardam na memória o tempo em que o movimento era intenso e a rua atraía compradores de todas as partes do mundo. Entre ferramentas gastas e móveis centenários, eles recordam com orgulho os anos ‘de ouro’, quando o ofício artesanal alcançou reconhecimento internacional. Pelo menos é o que lembra Alan Ricardo:
“Quando se fala em marcenaria, em restauração de móveis antigos, em trabalho de alta qualidade e com material de primeira, se pensa neste lugar aqui como um espaço de arte. A Rua Ruy Barbosa é uma referência — e não é de agora. Desde quando eu cheguei, ela já existia e já era conhecida. A Rua Ruy Barbosa é famosa praticamente no mundo todo. Antigamente, vinha gente dos Estados Unidos, da França… o pessoal vinha comprar aqui, entendeu?”, completa o artista.
Apesar do talento dos profissionais e da riqueza cultural que representam, as oficinas enfrentam um processo de esquecimento. Mesmo localizada no Centro Histórico de Salvador, a Rua Ruy Barbosa perdeu parte do movimento que tinha no passado.
A falta de visibilidade e os assaltos recorrentes afastaram muitos visitantes e clientes, contribuindo para o esvaziamento de um espaço que já foi sinônimo de tradição e criatividade. Hoje, os marceneiros resistem — sustentando, com esforço e arte, uma das grandes expressões vivas da antiga Salvador.
Na próxima edição, conheça mais curiosidades sobre os Sebos da Rua Ruy Barbosa
(Wendel de Novais)
Fotos: Sara Barnuevo


