Na rua estreita e ladrilhada por antigos paralelepípedos, a Rua Ruy Barbosa conduz a um verdadeiro refúgio de história, cultura e riquezas artísticas. Situada no coração de Salvador, ela é certamente vista por todos que caminham em direção à Rua Chile, que leva aos principais atrativos do Pelourinho, mas tem sido cada vez menos frequentada, ficando à margem da rota turística da capital baiana.
O logradouro foi batizado em homenagem ao jurista baiano Ruy Barbosa de Oliveira. No final da via, encontra-se o casarão histórico que pertenceu à família do político e jornalista, onde ele passou a infância e viveu até os 16 anos, por volta de 1865. Até meados de 1903, cerca de 20 anos antes da morte de Ruy, a rua era conhecida como “Rua dos Capitães”.
O imóvel, de paredes brancas marcadas pelo tempo e janelas em tons de verde, abriga hoje o Museu Casa de Ruy Barbosa. Desde 1935 sob posse da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), o espaço iniciou em 2022 um processo de restauração e revitalização de suas estruturas.

Ao longo de toda a extensão da rua e nos arredores do casarão, antigas construções preservam traços da arquitetura típica do período colonial e guardam histórias de outros tempos. Atrás de discretas fachadas, escondem-se universos de objetos e mobiliários que pertenceram a diferentes famílias em distintas épocas disponíveis para compra nos antigos antiquários que ainda seguem em funcionamento.
O sucesso da rua começou a despontar na década de 1960, quando se tornou conhecida pelos antiquários que transformaram o espaço em um reduto de memória. Em seus anos de auge, cerca de 14 estabelecimentos chegaram a funcionar apenas ali. Hoje, restam oito, no máximo. A Rua Ruy Barbosa também abriga sebos tradicionais, como o João Brandão, o São José e o Brandão, este último já encerrado, mas pioneiro desse tipo de comércio na capital.
“Essa rua era muito explorada nas décadas de 70, 80 e 90. Agora, com a internet, os leilões e as vendas virtuais, ficou um pouco defasado. Mas ainda recebemos colecionadores do Brasil todo, somos bem conhecidos”, conta o empresário Gildo Fortunato, dono do antiquário GG Antiguidades, herança do pai, que faleceu há 13 anos.

Localizada entre as praças Castro Alves e da Sé, a rua está cercada por dois dos hotéis mais renomados de Salvador: o Fera Palace e o Fasano. Ainda assim, apesar da proximidade com ícones do luxo e da cultura do Centro Histórico, a Rua Ruy Barbosa permanece esquecida, à margem do glamour que envolve a região.
“Se você me perguntar se o turismo em Salvador passa aqui, a resposta é não. Aqui não faz parte do roteiro turístico. Às vezes vem alguém curioso, que procura saber, mas essa rua não é divulgada”, lamenta Ademário Olímpio, um dos mais jovens antiquários que ainda resistem no local.

Para ele, o poder público deveria oferecer mais segurança, investir e impulsionar casarões importantes como o Museu da Casa dos Sete Candeeiros, um imóvel do século XVII que pertencia a jesuítas e já foi estadia da corte de D. João VI no século XIX, nas imediações, e dar maior visibilidade ao lugar.

“A Rua Ruy Barbosa tem uma história centenária e merece ser valorizada, assim como as pessoas que passaram por ela. A falta de incentivo e de reconhecimento do valor das antiguidades contribui para o declínio do comércio. O poder público poderia investir em divulgação e fortalecer a memória afetiva da cidade”, declara Ademário.
O comerciante acredita que é preciso um olhar mais cuidadoso para compreender esses espaços de antiguidades como verdadeiros guardiões do tempo, da cultura e, sobretudo, da arte de outros tempos. Esses antiquários serão apresentados nas próximas matérias a serem publicadas no site.
(Elaine Sanoli)


