No início da Rua Ruy Barbosa, no sentido de quem vem da Rua Chile, entre as lanchonetes e restaurantes que a todo momento recebem trabalhadores da região do Centro Histórico e da Avenida Sete, dois estabelecimentos seguem abertos sem o mesmo entra-e-sai. São eles os sebos São José e João Brandão, que, assim como os antiquários e restauradores, permanecem na via, ainda que a grande maioria dos seus clientes tenha deixado o local.
À espera de alguém — seja para uma negociação ou para uma boa conversa —, João Brandão, de 84 anos, está sempre presente no sebo que leva o seu nome. Esse, porém, tem pouco mais de um ano. Desde 1969, quando chegou a Salvador vindo do interior de Pernambuco, ele, na companhia do irmão, cuidou do Sebo Brandão Bahia, considerado por moradores o mais antigo da Rua Ruy Barbosa, fechado em 2024. O irmão de João, seu Eurico, voltou para o estado de origem, mas ele decidiu ficar.
“Eu não abandono isso aqui por amor. Desde menino trabalho com livros usados. Saí da agricultura para a cultura. Peguei essa doença, peguei esse amor. Essa aqui é a minha vida. Agora, não é só a gente que sofre, não. O mercado como um todo está praticamente acabado. As livrarias fecharam quase todas. Só de distribuidoras, em Salvador, chegamos a ter 168 livrarias. Hoje não tem quase nenhuma mais”, lamenta Brandão.
Assim como as livrarias, os sebos não têm o mesmo movimento de antes. Os motivos que ainda atraem clientes, no entanto, são outros: a busca por livros raros, esgotados ou nunca reeditados. Esses espaços se transformam em verdadeiros refúgios de memória literária, abrigando obras que resistem ao tempo.
“Os sebos guardam uma história muito particular da literatura. Vendi esses dias um livro muito bom: Relíquias da Terra do Ouro. Um livro que você não encontra mais e o cliente, quando viu, ficou louco porque não se reedita coisa boa. O povo chora quando vê esses livros. Aqui é o abrigo dos saudosistas que querem reviver memórias. Se acabar o sebo, muita gente morre de saudade”, afirma Brandão.

João Brandão
Vinte metros adiante, outro apaixonado pela cultura dos livros usados fala da atividade com entusiasmo semelhante ao do vizinho. Antes de ser dono, José Ivaldo trabalhou no Brandão Bahia. Depois, fundou o Sebo São José, batizado em referência a ele e ao cunhado, José Maurício, seu sócio — embora muitos acreditem ser uma homenagem ao santo, cuja imagem decora a parede do local, presente de uma cliente.
“Cheguei em 1992 à Rua Ruy Barbosa porque meu pai era amigo dos Brandão — foram criados juntos. Ele pediu para eu trabalhar no sebo com eles. Trabalhei 17 anos no Brandão e, depois, eu e meu cunhado resolvemos abrir o São José, que mantemos até hoje. Comecei a trabalhar com livros usados e, a todo momento, você vê uma novidade. Por isso me apaixonei e aprendi o ofício. Foi o que me fez permanecer até hoje”, relata Ivaldo.
Apesar da paixão e das trocas com quem chega ao espaço, os dois sebos sobrevivem graças ao digital. Ambos têm o acervo cadastrado na plataforma Estante Virtual, de onde vêm cerca de 99% das vendas, segundo os proprietários. Ainda assim, há um público fiel que resiste à leitura digital.
“Ainda temos clientes novos e antigos que gostam de pegar o livro e folhear. Gente que prefere essa experiência física. Aparece gente de todo lugar que vê anúncio do sebo na internet. A diferença é que aqui encontram livros esgotados, de autores locais e histórias que contam Salvador e o Brasil. Essas memórias são mantidas aqui”, diz Ivaldo.

José Ivaldo
Mesmo com o avanço do mercado online e o fechamento de várias livrarias tradicionais, os sebos da Rua Ruy Barbosa seguem como guardiões da história literária da cidade. Entre pilhas de volumes envelhecidos e capas amareladas, eles preservam não apenas livros, mas também a própria alma da rua — um lugar onde a cultura impressa ainda encontra abrigo.
Para muitos frequentadores, visitar esses espaços é mais do que uma compra: é um retorno ao passado, um mergulho nas lembranças e um gesto de resistência diante da transformação do Centro Histórico. Enquanto houver quem se emocione com o cheiro do papel antigo, os sebos continuarão vivos — sustentados pela memória, pela paixão e pela palavra impressa.
(Wendel de Novais)
Fotos: Sara Barnuevo


