As transformações urbanas do século XX tiraram do Passeio Público de Salvador a vista que fez do espaço um dos principais pontos de lazer da cidade no século anterior. Ainda assim, resistem ali construções que guardam a memória de outros tempos, como o Palácio da Aclamação e antigas residências que seguem de pé diante do avanço da cidade.
É justamente em frente ao passeio, por trás de um portão discreto, que se esconde um dos botecos mais singulares de Salvador. À primeira vista, a casa pouco revela. Mas basta atravessar a entrada e descer uma escadaria para entender que o destino está longe de ser óbvio.
O Quintal Raso da Catarina não funciona no interior da residência, mas nos fundos, escada abaixo, em um espaço que faz jus ao nome. Cercado por plantas e com um clima que mistura simplicidade e acolhimento, o ambiente remete a um quintal de casa antiga — daqueles onde o tempo parece correr mais devagar.
Não à toa, há mais de quatro décadas o boteco reúne frequentadores fiéis e curiosos vindos de diferentes partes da cidade. Quem chega encontra um espaço que convida à permanência, seja pela atmosfera, seja pelo que vem à mesa.

O Quintal tem mais de 200 rótulos de cachaça. Foto: Reprodução/Melhores Coisas de Salvador
Antes mesmo de pensar na comida, vale explorar a impressionante carta de cachaças. São mais de 200 rótulos expostos, que transformam o Quintal em um pequeno templo para os apreciadores da bebida. Entre eles, a Serra das Almas chama atenção pela potência — são 48 graus de álcool —, enquanto a cachaça de jambu oferece uma experiência mais sensorial, com o leve formigamento característico que toma conta dos lábios e da língua.
Há ainda espaço para criações da casa, como o “Príncipe Maluco”. Longe da versão carnavalesca que mistura de tudo um pouco, o drinque aparece aqui em uma leitura mais equilibrada, combinando cachaça de qualidade, limão e canela em uma infusão aromática e surpreendente.
Com o apetite aberto, a brasa passa a ser protagonista. A Toscana na Brasa é uma boa porta de entrada: suculenta, bem executada e acompanhada de farofa d’água e vinagrete, daqueles que cumprem o papel de equilibrar e realçar o sabor da carne.
Outra pedida que chama atenção é a carne de sol Angus. Mais delicada na cura e mais macia graças ao marmoreio da raça, ela chega à mesa com uma crosta dourada por fora e interior suculento, acompanhada de aipim com manteiga de garrafa, farofa e vinagrete. Um prato que combina técnica e tradição sem perder o caráter de comida de boteco.

Boteco reserva gastronomia que encanta. Foto: Lìgia Skowronski/VEJASP
Apesar da força da brasa, é nos baiões que o Quintal Raso da Catarina consolida sua identidade. O Baião Sertanejo, um dos principais do cardápio, reúne feijão-fradinho, queijo coalho e fumeiro desfiado em uma mistura cremosa, bem temperada e reconfortante. É o tipo de prato que traduz, sem esforço, a essência da cozinha nordestina.
Outro destaque é o cordeiro flambado na cachaça, já reconhecido em concursos gastronômicos locais. Intenso e aromático, o prato combina a maciez da carne com o toque marcante da flambagem, resultando em uma preparação que equilibra força e elegância no sabor.
Sem placas chamativas ou grande exposição, o Quintal Raso da Catarina se mantém como um daqueles endereços que parecem existir à margem do óbvio. No meio do centro de Salvador, entrega algo cada vez mais raro: um lugar onde ambiente, bebida e comida caminham juntos — e fazem valer cada degrau da escada.
Texto: Wendel de Novais
Fotos: Reprodução
