A cineasta e jornalista baiana Liliane Mutti exibiu dois de seus filmes no festival Migraction, realizado no último dia 26 no Le Théâtre de l’Opprimé, em Paris. As obras apresentadas foram Clarice de Ulisses (2023) e Miúcha, a Voz da Bossa Nova (2022), ambas dirigidas por ela. O evento celebrou a cinematografia feminina, foco do trabalho da diretora, que afirmou ter como missão “amplificar as vozes dessas mulheres e outros personagens da margem”.
O curta Ta Clarice (título em francês) mistura ficção e realidade para homenagear Clarice Lispector. Ambientado em 2020, em Paris, o filme traz Gabriella Scheer e Clarisse Zarvos no papel da escritora, em cenas que mostram reflexões existenciais com seu cão, Ulisses. Já Miúcha reconstrói a trajetória da cantora e compositora a partir de diários, cartas e filmagens em super-8, destacando seu papel na Bossa Nova e suas relações com João Gilberto, Tom Jobim e Chico Buarque.

Liliane dedicou as exibições à sua madrinha, Maria Teresinha do Amaral Reis, nascida em Santo Amaro da Purificação. “Recebi a notícia da sua morte a caminho do teatro. Era como uma segunda mãe para mim. Decidi resgatar o sobrenome Mutti, da minha avó materna, como forma de homenagear mulheres como ela, que não tiveram seus nomes registrados por inteiro”, contou.
O convite partiu do diretor do teatro, Rui Frati. “Ele me deu carta branca para propor uma sessão com minhas obras. Com a equipe, conceituamos a noite como Portrait des Femmes, destacando mulheres como narradoras de suas próprias histórias”, explica. Em Miúcha, ouvimos a própria cantora, com leituras feitas por sua sobrinha Silvia Buarque. Já em Ta Clarice, há um diálogo entre Clarice e seu cão-filósofo.
Radicada em Paris, Liliane desenvolve pesquisas sobre mulheres latino-americanas na Europa. Miúcha foi resultado de seu mestrado entre a UFF e universidades francesas como Sorbonne Nouvelle, Paris Diderot e Sorbonne IV. “Em Paris, encontrei mulheres da diáspora brasileira, como Maria d’Apparecida, cantora de ópera e tema do meu próximo filme.”
A diretora também trabalha em novos projetos: um filme sobre Angela Ro Ro e outro ambientado na Bahia. “Depois do meu quinto documentário, feito em Niterói, estou mergulhada em uma ficção que mistura animação e arquivos. Ainda não posso dar detalhes, mas é protagonizada por uma mulher.”
Nesta quinta-feira (3), o Cineclube Nanook da UFBA exibe Miúcha em sessão especial com apoio da Paris de Cinema e da Toca Filmes. A exibição acontece às 16h30, no auditório da Faculdade de Comunicação, em Ondina, com mediação de Francisco Alves Junior.
Liliane e Rui Frati (crédito: Maria José Malheiros)


