Quem gosta de ler vai descobrir um mundo entre os títulos de uma editora contracorrente, criada por um baiano de Guanambi há menos de dez anos. Tem a viagem mítica da cantora norte-americana Janis Joplin ao Brasil nos anos 1970; a biografia do paulistano Vadico, principal parceiro de Noel Rosa; a história da livraria Literarte, polo de resistência à ditadura em Salvador, nos anos 1980; a força do cangaço nas histórias em quadrinhos no Brasil e no exterior; e todos os detalhes da vida do gênio do choro Jacob do Bandolim.
A Noir, do jornalista, escritor e editor Gonçalo Junior, já publicou 70 livros desde 2017 e sempre tem uma novidade. O destaque agora é Entre o prazer, o pecado e a moral sobre quando a atriz holandesa Sylvia Kristel veio ao país lançar um filme e aproveitou para pedir aos políticos, em Brasília, a liberação do “pornô-chic” Emmanuelle, filme proibido seis anos antes pela ditadura militar. O autor – o próprio Gonçalo – narra a situação inimaginável que Kristel vivenciaria durante e depois dessa experiência brasileira.
A demora de anos, muitas vezes, para uma editora publicar um livro e o fato de esse ex-aluno da Faculdade de Comunicação da Ufba (Facom) não ver com bons olhos o corte, ou a mutilação, que as editoras fazem em um trabalho – por motivos diversos, incluindo a censura – o levaram a criar uma editora para chamar de sua.
Surgiu a Noir (seria Voo Livre, mas o ex-sócio e designer gráfico André Fernandez, que ainda faz os projetos gráficos dos livros, não curtiu muito). “Comecei a pensar na editora, porque me dá espaço para fazer o que eu quero, como eu quero, quando eu quero, sem precisar do aval de ninguém”, comenta o editor.
No site oficial, a editora é descrita como um espaço de irreverência, contestação e transgressão, e que busca repensar valores, conceitos e preconceitos. Ao visitar a página, o leitor é convidado a assinar uma newsletter, uma maneira de estreitar os laços com o projeto.
Entre os autores publicados, o jornalista e pesquisador baiano Gutemberg Cruz confirma: “A Noir é uma casa editorial paulistana que se destaca por focar em um nicho muito específico e culturalmente rico: personagens transgressores, a história da contracultura, quadrinhos e a cultura pop ‘maldita’ ou esquecida. Fundada com a proposta de explorar áreas negligenciadas pelo mercado editorial tradicional, a Noir rapidamente se tornou uma referência para entusiastas de quadrinhos, biografias de artistas cult e do resgate da memória nacional”.
Outros títulos ainda chamam a atenção, como Humor e pandemia – Riso e resistência, em que os autores Sírio Possenti, Ana Cristina Carmelino, Cellina Rodrigues Muniz, Márcio Antonio Gatti e Paulo Ramos procuram registrar como o riso serviu de instrumento de crítica durante a trágica pandemia de covid-19 e mostrou diferentes ângulos do tal “novo normal”, ajudando a pressionar na busca por soluções humanitárias. Nesse período, lembram, houve boas notícias: além do humor, o desenvolvimento da vacina contra a doença.
Há ainda O diabo também manda flores, sequência da baiana Joana Rizério sobre um casamento abusivo, marcado por perseguições doentias e paranoias infundadas, que abalaram sua saúde mental e transformaram sua vida. Os livros da Noir variam de R$ 39,90 a R$ 299,00.
Campanhas
Sobre como viabiliza tudo economicamente, Gonçalo Junior explica que várias publicações são feitas após financiamentos coletivos, que funcionam como uma espécie de pré-venda. As campanhas são lançadas para atrair cerca de 300 interessados, que pagam antecipadamente e, depois, recebem o livro novinho, autografado ou com outro tipo de brinde. Só neste ano, foram quatro ações semelhantes que possibilitaram a realização de oito trabalhos.
Nesse ofício de ler, pesquisar, escrever, publicar e ser dono de uma editora, Gonçalo aprendeu a diferença entre o que chama de “fazedor de livro” e o editor. Detesta os que proclamam “Eu sei o que vende”. Prefere aqueles que leem muito, leem o que publicam e estão dispostos a imprimir e fazer circular uma boa história.
E de boas histórias ele mostra que entende. Começou no Jornal da Bahia, passou pela Tribuna, participou da equipe que fundou o Bahia Hoje, foi para a Gazeta Mercantil, onde ficou até 2003, e colaborou para publicações como A Tarde, Playboy, Folha de S.Paulo, Carta Capital, Bravo!, Trip e outras. Resenhou filmes por mais de 20 anos. Fez mais de seiscentas resenhas de livros. Publicou outros 50. “Tenho ideia para mais uns cem livros”, garante.
Gonçalo já escreveu O país da TV, A guerra dos gibis, O homem-abril, A enciclopédia dos monstros e as biografias de Assis Valente e Rubem Alves. Como se vê, não restringe seu interesse à Bahia ou aos baianos somente.
Acrescenta, inclusive, que se encaixa no conceito de falso baiano, citando o álbum homônimo do amigo, cantor e compositor Paquito. Vivendo em São Paulo, seu vínculo com Salvador é publicar autores daqui e vir esporadicamente.
“Vou a Salvador passear, ver minha mãe, minhas irmãs, alguns amigos, e tá ótimo”, diz ele, sem esconder algumas decepções que teve na capital baiana, com lançamentos de livros, ou a impressão de “arrogância” que lhe passam alguns críticos, historiadores e professores sobre as coisas da Bahia. “Assis Valente nasceu em Salvador, e não em Santo Amaro. Ponto. Nem todo gênio nasce em Santo Amaro”, brinca.
Esse, por exemplo, que mantém uma editora de pé, com a ajuda de serviços terceirizados e parcerias (se lembra?), é de Guanambi.
(Tharsila Prates)




