Que o bairro dos Barris guarda alguns dos espaços onde a boemia encontra aconchego em Salvador não é exatamente novidade. O que nem todo mundo sabe, porém, é que em uma rua discreta da região existe um boteco que funciona quase como um portal direto para a culinária tradicional do norte da Bahia.
O bar Xique-Xique, batizado em homenagem à cidade de origem do dono, fica meio escondido na Rua Rockfeller, cerca de 100 metros depois de passar pelo Velho Espanha e pela Biblioteca Central. Não é daqueles lugares que saltam aos olhos de quem passa — e talvez seja justamente isso que preserve o clima de descoberta para quem chega.
Encontrá-lo, no entanto, se traduz em uma experiência gastronômica pouco comum em Salvador. O carro-chefe da casa é a carne de bode, ingrediente que pode até soar exótico para parte do público da capital, mas que ocupa lugar central na culinária do norte baiano e do Vale do São Francisco.

Picanha de bode maturada no Xique-Xique. Foto: Reprodução
Em Petrolina, cidade pernambucana colada com Juazeiro, existe até o famoso Bodódromo — um complexo gastronômico inteiro dedicado a restaurantes especializados em pratos com bode. Guardadas as proporções, o Xique-Xique poderia muito bem reivindicar para si um espaço semelhante na capital baiana.
Por lá, a viagem pela culinária sertaneja começa logo nos petiscos. Uma boa porta de entrada é a costelinha de bode frita, servida acompanhada de vinagrete e de uma farofa preparada com o chamado “vazio do bode”. O corte, considerado nobre, lembra à distância o charque bovino, mas com personalidade própria.
A costela chega suculenta e no ponto certo, com um sabor mais intenso e marcante do que o da carne bovina. Os acompanhamentos ajudam a equilibrar a experiência: a vinagrete simples refresca o paladar, enquanto a farofa do vazio entrega textura e um sabor profundo que remete imediatamente à cozinha sertaneja.
Entre os pratos principais, a pedida mais curiosa é a picanha maturada de bode. Servida em uma chapa quente, ela vem acompanhada de cebola, queijo coalho, arroz e vinagrete. Mesmo com menos gordura do que cortes tradicionais de boi, a carne surpreende pela maciez e pela intensidade de sabor.

Torresmo é tradição e um pedido aconselhável no boteco. Foto: Reprodução
Se vale um conselho de mesa, pedir uma porção de torresmo para acompanhar não é exagero. Pelo contrário: a combinação acaba funcionando como um complemento perfeito para quem quer transformar o almoço em uma experiência mais completa.
Apesar da fama construída em torno do bode, o Xique-Xique não vive apenas disso. No cardápio, há também opções mais familiares, como o filé mignon ao molho malassado — uma escolha segura para quem prefere não se aventurar tanto na culinária sertaneja.
Os salgados também cumprem bem o papel de petisco de boteco. Quibes e camarões empanados aparecem como opções simples, mas que dificilmente decepcionam quem resolve pedir algo para beliscar.
Para acompanhar, não tem segredo: a cerveja chega estupidamente gelada — com o perdão da palavra —, do jeito que qualquer bom boteco de Salvador sabe que tem que ser.
Sem grandes pretensões de sofisticação, o Xique-Xique faz algo que muitos bares mais modernos acabam deixando de lado: aposta na cozinha de raiz e no sabor sem rodeios. No meio dos Barris, é um endereço que prova que, às vezes, basta um prato bem feito para transportar o cliente direto para o sertão.
Texto: Wendel de Novais
Fotos: Reprodução
