Filho de Mãe Santinha de Oyá. Pioneiro na criação de estampas afro-baianas. Dono de uma produção visual que celebra os saberes e fazeres afro-brasileiros, com obras que integram acervos de instituições no Brasil e no exterior. Um dos fundadores do Cortejo Afro. O artista plástico, carnavalesco, designer e serígrafo baiano Alberto Pitta está comemorando 45 anos de carreira e, no próximo dia 5, será agraciado com o lançamento do livro Alberto Pitta: FúnFún DúDú.
O título significa branco e preto, na tradução do iorubá. De acordo com o autor Danillo Barata, ele foi escolhido por sintetizar a dualidade que atravessa a obra e o pensamento de Pitta. “O Fún Fún remete à dimensão espiritual de sua criação — uma relação direta com a ancestralidade, com Orunmilá e com os trabalhos em que o branco se apresenta como signo de pureza, sabedoria e transcendência. Já o Dúdú evoca a força da negritude, as profundezas do Atlântico negro e as raízes da ancestralidade africana que estruturam sua poética”, explica Danillo.
O livro, editado pela Anjo Negro, é fruto da pesquisa desenvolvida, ao longo do ano, pelo projeto Paisagem Sonora cujo festival acontece entre os dias 5 e 7 de dezembro, na Casa Rosa, no bairro do Rio Vermelho.
O evento nasceu em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, em 2013, junto com o desejo de implantação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde Danillo é pró-reitor de Extensão e Cultura. “Começamos a nos movimentar para criar um circuito, com festivais de cinema, música, videomapping e coletivos diversos. Entendemos ser fundamental também prestar homenagem a pessoas que ajudaram a criar a identidade visual do Carnaval da Bahia, porque não é só a música.”
No início, o evento era realizado a cada dois anos. Desde 2023, tornou-se anual, agregando um caráter formativo e artístico. Em 2024, os 50 anos de carreira do artista plástico J. Cunha também foram tema de livro.
Trama
A publicação do Paisagem Sonora não só dá conta da trajetória do homenageado como a embala em um trabalho refinado, que conjuga a expressão de Pitta com outros elementos visuais.

O artista transforma o tecido em uma linguagem viva, ou seja, em uma trama rica de símbolos, cores e histórias que estabelece uma ponte essencial, conectando os Brasis, as Áfricas e suas diásporas em uma poderosa expressão visual. O design de FúnFún DúDú, a cargo da Casa Grida, buscou privilegiar ideias gráficas que abraçassem essa obra.
“Tivemos dois desafios lançados pelo próprio artista: um foi tratar a imagem e a fotografia dos panos com a preocupação de que o papel não os tornasse desenhos não-têxteis o suficiente. Segundo, a ideia de que a história dos blocos de índio deveria vir numa embalagem de caixa de fósforo”, explica a designer Iansã Negrão, criadora na Casa Grida.
Para resolver o primeiro desafio, a solução foi usar o espaço de mata do Instituto Oyá, em Pirajá, como coadjuvante para as fotografias de Roberto Abreu, aproveitando as luzes e as sombras das árvores e também a presença ativa do vento, para captar a beleza de um pano estendido ao sol.
Para o segundo, a solução veio com um lote de caixinhas de suvenir de fósforos de hotel e de restaurantes antigos, que serviram de base para a criação da pasta-caixa onde está a brochura. A ilustração de Morgana Miranda, designer da Grida, completa a fantasia, baseada na estampa de Pitta para o bloco Commanche do Pelô — 40 anos, de 2014. “Foi divertido me debruçar sobre os padrões geométricos e estampas de Pitta para criar essa caixinha idílica que o leitor terá a experiência de abrir”, completa Morgana.
E o que Pitta achou de tudo? Está feliz e lisonjeado. “Eu trabalhei a vida inteira. Quando você chega nesse lugar da academia te ver e ver importância no seu trabalho, a gente fica feliz. E o Paisagem Sonora se mostra eficaz nesse diálogo entre a universidade e os artistas do nosso povo.”
Quem quiser saber mais sobre o artista poderá conferir a nova exposição Alafiou, no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), inaugurada na última sexta-feira (28). A mostra individual é inédita em Salvador e percorre a produção de Pitta, destacando a cultura afro-brasileira como eixo essencial de sua obra.
(Tharsila Prates)
(Foto: Roberto Abreu)


