O carinho de Wagner Moura pelo Dona Mariquita não é recente. Ao escolher o restaurante comandado pela chef Leila Carreiro entre seus cinco lugares preferidos em Salvador em entrevista ao The New York Times, o ator baiano colocou novamente em evidência uma relação construída há anos com a casa e com a cozinha de matriz afro-brasileira que ela representa.
Segundo Leila, Wagner frequenta o restaurante desde que os filhos dele e Sandrinha, sua esposa, eram pequenos. Sempre que retorna à Bahia, o ator costuma passar pelo Dona Mariquita e pedir o mesmo prato: o arroz de hauçá, uma das preparações que traduzem a presença africana na formação da culinária baiana. Ao falar de Wagner, a chef da casa não esconde o carinho. “Uma pessoa extremamente simples, que valoriza tudo que é nosso e sempre fala que é importante fortalecer o outro”, contou a chef.
Na entrevista ao Times, Wagner recomendou o Dona Mariquita para quem estiver em Salvador, especialmente durante o almoço, acompanhado de uma cerveja gelada. Para Leila, o reconhecimento ganha uma dimensão ainda maior por vir de alguém que conhece e valoriza a própria terra. “Me sinto honrada por ser lembrada como parte da Bahia”, afirmou.



Chef Leila Carreiro. Fotos: Reprodução
A chef também aproveitou a repercussão para chamar atenção para aquilo que considera um dos grandes desafios da gastronomia brasileira: fazer com que os próprios brasileiros reconheçam a riqueza de sua cozinha. Para ela, ingredientes como o dendê e as comidas de feira, muitas delas diretamente ligadas à herança africana, ainda são tratados como algo banal por quem não conhece a história por trás deles.
“Acho que se todo baiano anônimo conhecesse a sua história ancestral e reconhecesse ingredientes tão emblemáticos como o dendê e as comidas de feira que são as legítimas comidas africanas na construção da nossa cultura, reconheceria o significado que esse artista dá ao que para nós é lugar comum”, disse.
Pesquisadora de comidas típicas regionais que caíram em desuso, Leila acredita que a valorização precisa começar dentro de casa. Na avaliação dela, antes de buscar reconhecimento internacional, é necessário descobrir e prestigiar os muitos cozinheiros, ingredientes e técnicas que já existem em Salvador e em outras partes do país.
“Quantas Mariquitas temos em Salvador que não sabemos?”, questionou. Ela também defende que as faculdades brasileiras ampliem o ensino para além da clássica cozinha francesa e deem espaço às técnicas indígenas, africanas e regionais, incluindo preparações de comidas envolvidas em folhas.



Dona Mariquita foi mencionado por Wagner Moura no Times. Foto: Reprodução
Sobre a gastronomia de alta cozinha de Salvador, Leila concorda com Wagner Moura ao destacar o trabalho dos restaurantes Origem e Manga, mas faz uma ressalva sobre a importância de diferentes formas de reconhecimento internacional.
Segundo ela, os dois estabelecimentos já possuem selos e distinções fora do país, ainda que não sejam estrelas Michelin. Para a chef, essas conquistas também refletem o esforço de profissionais que precisaram estudar e trabalhar no exterior antes de serem reconhecidos em sua própria cidade. “O que entristece mesmo é o Brasil não conhecer o Brasil”, resumiu Leila.
Fotos: Reprodução
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