Para Camila Pitanga, revisitar a trajetória do pai é também reencontrar uma parte importante da história do cinema brasileiro. À frente da curadoria da Mostra Pitanga ao lado de Thiago Ortman, a atriz mergulhou em quase sete décadas de carreira de Antonio Pitanga para construir uma seleção de 29 filmes capaz de atravessar diferentes momentos de sua trajetória, do Cinema Novo aos trabalhos mais recentes.
O resultado, segundo ela, é um mosaico que busca apresentar às novas gerações não apenas a dimensão artística do ator e diretor, mas também a importância de sua presença negra e baiana na cultura brasileira. Entre o olhar profissional e o vínculo familiar, Camila encontrou no afeto uma espécie de fio condutor para a curadoria.
Em entrevista ao site Ronaldo Jacobina, ela fala sobre os desafios de condensar uma filmografia com mais de 80 filmes, as descobertas feitas durante o processo de pesquisa e a emoção de recuperar obras como Jardim de Guerra, de Neville de Almeida. Filha e curadora, ela também reflete sobre a responsabilidade de preservar o legado de Antonio Pitanga e, ao mesmo tempo, fazê-lo dialogar com o presente.
Como foi construir essa mostra e o desafio de seleção dos filmes representados nela?
Acho que tanto eu quanto Thiago Ortman, que dividimos esse trabalho de curadoria, sabíamos da responsabilidade de honrar o legado e toda a trajetória profícua do ator e diretor Antonio Pitanga. Ao mesmo tempo, queríamos fazer uma ponte com outras gerações, que nem sempre têm em seu radar a representatividade desse ator negro baiano na história da cultura brasileira. A ideia era construir um mosaico representativo desse arco tão importante da nossa história.Ele tem mais de 80 filmes como ator, então era preciso escolher obras que dessem conta da diversidade de sua trajetória.
Dá para dizer que essa curadoria, em especial, é um trabalho profissional e um gesto afetivo?
Claro, era fundamental honrar as bases e o sustentáculo que o Cinema Novo representa na carreira dele, mas também pincelar, entre curtas e longas-metragens, as diferentes contribuições que ele vem fazendo até hoje. Nos últimos anos, ele tem feito três ou quatro filmes por ano, além de peças de teatro e novelas. Existe nele um frescor muito interessante, que é um farol para as novas gerações. E, evidentemente, o amor é o fio que tece esse mosaico. Eu nunca vou deixar de ser filha, e não quero deixar. Muito pelo contrário: sou uma filha honrando o legado de um pai.



Durante esse processo de pesquisa, houve alguma descoberta que você não conhecia ou que ganhou um novo significado?
Quando filmei com Beto Brant o documentário Pitanga, sobre meu pai, já precisei mergulhar profundamente na filmografia dele. Mas alguns filmes não conseguimos acessar por motivos diversos. Um deles foi Jardim de Guerra, de Neville de Almeida, um filme que foi censurado e que traz um monólogo histórico interpretado pelo meu pai, fazendo uma denúncia contundente do racismo e da falsa moralidade da época. Naquele momento, havia apenas uma cópia, que não conseguimos obter a tempo para o documentário.
Neville conseguiu recuperar essa cópia, que havia sido enviada ao Festival de Cannes e estava fora do país havia cerca de 50 anos. Ele fez uma espécie de remasterização e, agora, conseguimos incluí-la na mostra. Foi uma emoção muito grande rever a abertura desse monólogo tão contundente e radical, dirigido magistralmente por Neville de Almeida.
Como se deu o processo de condensar uma trajetória tão extensa em apenas 29 filmes?
Foi uma espécie de malabarismo. Precisávamos pincelar, entre longas e curtas-metragens, aquilo que considerávamos mais emblemático e interessante à luz dos nossos tempos. Foi uma senhora missão, e eu não fiz isso sozinha. A curadoria foi construída em colaboração com Thiago. Também é importante falar do catálogo da mostra. Reunimos textos inéditos, escritos especialmente para a publicação por diferentes ensaístas, além de uma crítica de Caetano Veloso sobre O Pagador de Promessas. Existe toda uma outra curadoria, feita por mim e por Thiago, para reunir documentos importantes que ajudam a contar essa história e esse arco da trajetória do meu pai.



Ao revisitar essa filmografia, o que vocês buscavam preservar e, ao mesmo tempo, atualizar?
Era importante não apenas reunir documentos, mas também provocar interpretações e pesquisas a partir do presente. Somos nós, de hoje, olhando para esse repertório e pensando sobre ele. Então, tem um valor muito grande de documento e de eternização, né? Temos os filmes, mas também temos a cabeça, o pensamento.
Fotos: Reprodução
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