Durante os meses que antecedem o São João, a rotina de uma banda de forró é marcada por estradas, palcos e agendas apertadas. No caso da U Tal do Xote, são de três a cinco apresentações por semana entre maio e junho. Quando o calendário junino termina, porém, a realidade muda radicalmente: a média despenca para apenas dois shows por mês.
A mudança vai muito além da agenda. Com menos apresentações, as equipes são reduzidas, eventos próprios passam a ser uma alternativa para manter o caixa funcionando e propostas de cachês abaixo do custo da banda tornam-se mais frequentes. Para quem vive da música, o período pós-São João é também um exercício constante de reinvenção.
Em entrevista ao site Ronaldo Jacobina, o cantor Maumau Cairo, vocalista da U Tal do Xote, analisa os desafios enfrentados pelas bandas de forró fora da temporada junina, critica a forma como o gênero é tratado de maneira sazonal e defende mais espaço para o ritmo durante todo o ano.



Durante o São João a agenda costuma ficar lotada. O que muda na rotina da banda quando termina esse período? A queda de shows é tão grande quanto o público imagina?
É uma mudança drástica na rotina da banda. Para você ter ideia, nos meses de maio e junho a gente faz de três a cinco shows por semana. Quando esse período passa, a média cai para apenas dois shows por mês. É uma mudança muito brusca.
É possível manter financeiramente uma banda de xote durante o restante do ano apenas com apresentações, ou o São João acaba sustentando boa parte das atividades dos meses seguintes?
Não. Infelizmente, ainda não temos uma agenda que consiga suprir todo o restante do ano. A gente procura outras saídas, como eventos particulares, cria eventos próprios e vai se reinventando para manter o trabalho ativo e conseguir pagar toda a folha mensal.
A estrutura da banda muda fora da temporada junina?
Sim. Fora do período junino a gente reduz a equipe de produção e técnica. Como o volume de shows é bem menor, precisamos adotar essa logística para adequar os custos. No período junino chegamos a rodar com 15 pessoas, entre músicos, roadies, produção e equipe técnica. Depois desse período, esse número cai para nove. Quem acaba saindo normalmente migra para bandas de outros segmentos, então essas pessoas conseguem continuar trabalhando.
Quais são os maiores desafios para manter o xote em evidência durante o restante do ano, quando outros estilos acabam dominando a programação de festas e eventos?
O maior desafio é a valorização do próprio ritmo, que ainda é vendido de forma sazonal. A mídia, por exemplo, só vende o forró nesse período junino, sempre ligado a roupa quadriculada, chapéu de palha, bandeirola e fogueira. Mas quem consome isso durante o restante do ano? O forró é um ritmo como qualquer outro. A gente canta sobre amor, farra, desilusão amorosa… É um gênero muito rico para ser limitado apenas ao período junino.



Vocês precisaram adaptar o repertório para conquistar espaço fora do São João?
No caso da U Tal do Xote, não vejo isso como uma necessidade porque diversificar o repertório sempre foi uma característica da banda. Desde o início, trazemos músicas de outros ritmos para o forró, e isso acabou se tornando um diferencial do nosso show.
Na sua visão, o mercado valoriza as bandas de forró apenas no São João? O que falta para que esse cenário mude?
Infelizmente, o mercado ainda não olha para o forró fora do período junino. As oportunidades são escassas e muitas propostas são inviáveis. Acho que ajudaria muito uma união maior do próprio segmento, a criação de festivais ao longo de todo o ano, mais espaço na mídia para novas bandas mostrarem o trabalho e um processo de contratação pública que desse mais segurança quanto ao pagamento dos cachês.
Você também citou os atrasos nos pagamentos de apresentações contratadas pelo poder público. Esse é um problema recorrente?
Sim. Infelizmente, essa é uma realidade de muitas bandas de forró da Bahia. O impacto no caixa é grande e, muitas vezes, os próprios sócios precisam antecipar esse dinheiro para que todos os colaboradores recebam e ninguém fique no prejuízo.
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