Da paixão pelos quadrinhos desde o ginásio, na década de 1960, ao recém-lançado livro Sangue nos Olhos: o Cangaço nos Quadrinhos (2025), o jornalista e pesquisador baiano Gutemberg Cruz coleciona leituras, prêmios e uma defesa intransigente do gênero.
Há quase 90 anos, o cangaço é tema de HQs no Brasil e no exterior. Não se sabe ao certo quantos personagens, séries ou histórias avulsas foram retratados em tiras de jornais e gibis, mas o estudioso estima que esse número pode ser de uma centena ou mais.
Oitava obra do autor pela editora Noir, Sangue nos Olhos mapeia 86 trabalhos, com a pretensão de dar um pontapé na pesquisa sobre o assunto que ele considera tão rico e brasileiro e que se tornou símbolo da resistência do quadrinho nacional contra a dominação do mercado, sobretudo, norte-americano. Não houve evento de lançamento, mas o livro já está disponível para a venda.
Entre os desenhistas baianos mencionados estão: Setúbal, Antônio Cedraz, Flavio Luiz e Hélcio Rogério. Nascido em Miguel Calmon, no interior baiano, Cedraz criou a premiada Turma do Xaxado. O garoto, neto de um famoso cangaceiro que vivia com o bando de Lampião, se vê às voltas com problemas do dia a dia, junto com seus pais e amigos. Sensível às frustrações de seu tempo, o menino demonstra especial preocupação com a desigualdade social. Gutemberg exalta a simplicidade do traço de Cedraz (1945 – 2014) e a criatividade da narrativa.
Além dos quadrinistas da Bahia, ele cita ainda os trabalhos de Euclides Santos, que produziu, em 1938, para o jornal Noite Ilustrada, a HQ Vida de Lampião, considerada uma das primeiras produções de quadrinhos sobre o cangaço; o cartunista Henfil, que criou a dupla Capitão Zeferino, um cangaceiro nordestino, e Graúna, uma ave da caatinga, em 1970; e Jô Oliveira, autor de A Guerra do Reino Divino (1976), explorando novamente o imaginário nordestino.
Entre os mais recentes, estão: Emanoel Amaral e Aucides Sales, que criaram O Ataque de Lampião a Mossoró; Ataíde Braz e Flávio Colin, com Mulher-Diaba no Rastro de Lampião; Rubem Wanderley Filho, com Lampião em Quadrinhos; e Haroldo Magno e Edvan Bezerra, com Sertão Vermelho, Lampião em Quadrinhos.
Luta contra a opressão
Gutemberg explica que escolheu falar sobre cangaço nas HQs, porque é algo inédito, além de relevante. “O cangaço, com sua aura de rebeldia e luta contra a opressão, serviu como uma poderosa metáfora para criticar a ditadura militar no Brasil. Nos quadrinhos, essa analogia se tornou particularmente importante, permitindo que os artistas expressassem seus sentimentos e ideias de forma criativa e subversiva. Assim, o cangaceiro aparece associado a múltiplas representações que vão do bandido sanguinário ao bandido social, do justiceiro ao mau caráter sem escrúpulos, tornando-se, portanto, aberto a várias ressonâncias”, comenta o pesquisador.
Um dos muitos “causos” que Gutemberg conta foi a censura que sofreu, ainda no colégio em Salvador, quando fez o melhor resumo da sala, da obra A Moreninha, após a leitura de uma HQ sobre o romance. A professora ficou possessa, classificou a abordagem dos quadrinhos como um desrespeito e o expulsou da escola. Bastou isso para o menino procurar um jornal, expor o caso e iniciar uma carreira longeva na área.
Ele é autor também de O Traço dos Mestres (1993), Feras do Humor Baiano (1997), Gente da Bahia (dois volumes, 1997 e 1998), Bahia, um Estado D´alma (2009) e Breviário da Bahia (2015). Com a Noir, publicou Grande Dicionário do Quadrinho Brasileiro (2022), Traços da Diversidade: de J. Carlos a Laerte (2023), Repare Só! Uma História dos Quadrinhos na Bahia (2023) e Gatolândia: os Felinos Mais Amados dos Gibis (2025), entre outros.
Para o baiano, que já iniciou a preparação do próximo trabalho, os quadrinhos brasileiros desempenham um papel fundamental na construção da identidade nacional, ao popularizar a história e a cultura, criar heróis e ícones, formar valores e cidadania, desenvolver a indústria cultural e utilizar uma linguagem universal e atemporal. “Através de suas narrativas e imagens, os quadrinhos contribuem para a formação do imaginário popular e para a construção de uma identidade brasileira mais forte e diversificada.”
(Tharsila Prates)








