Um novo estudo, desta vez publicado no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, por dois físicos de universidades brasileiras, sugere que a expedição portuguesa de Pedro Álvares Cabral teria chegado não em Porto Seguro, mas no que é hoje os municípios de Rio do Fogo e de São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte.
Carlos Chesman, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Claudio Furtado, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), se basearam em cálculos realizados a partir dos dados disponíveis na carta de Pero Vaz de Caminha e em simulações de ventos, correntes marítimas e profundidades do mar ao longo da rota percorrida pela frota. Ao cruzar essas informações com medições e expedições de campo, os pesquisadores identificaram outro ponto de chegada: o que seria o monte Serra Verde, em João Câmara (RN), e não o Monte Pascoal, na Bahia.
Não é uma conclusão nova. No mesmo Rio Grande do Norte, o intelectual Luís da Câmara Cascudo apontava a região de Touros (RN) como chegada das caravelas portuguesas. Já houve estudos que falam de pontos em Pernambuco e até no Sul do Brasil.
O historiador e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Francisco Cancela disse que não leu o novo artigo no Journal of Navigation, mas considera o suposto novo local como uma falsa polêmica. Para ele, a questão central é desmistificar a origem do Brasil como Nação só após a chegada dos portugueses. “A gente precisa fazer o debate fugindo dessas armadilhas, que foram fundamentais no século 19 para uma historiografia nacionalista. Precisamos de outra perspectiva. O Brasil não se inicia em 1500. Tínhamos territórios habitados, com outra organização política e produção econômica bastante diversa. Na América toda.”
O especialista defende que, além de antigo, é um debate anacrônico, porque nem as categorias, nas quais estão calcadas essas chegadas, existiam. As capitanias batizadas de Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte só foram criadas posteriormente. E Porto Seguro, naquela configuração, nem era parte da Bahia, lembra ele. Macena afirma que “há mais probabilidade” de ter sido mesmo em Porto Seguro, não só por conta da carta de Pero Vaz de Caminha, como também pelos vários documentos de missionários, cronistas e viajantes, antes e depois da chegada dos portugueses, que são fontes históricas fundamentais.
O secretário de Turismo de Porto Seguro, Guto Jones, concorda que o mais importante é a presença dos indígenas no território baiano. Para ele, a divulgação de outro local de chegada dos portugueses ao Brasil deveria servir para reacender o interesse dos próprios brasileiros no turismo histórico. “Esse pode ser um ótimo motivo para incentivar que os brasileiros conheçam nossas ruínas, nosso Museu Sacro, a Igreja da Misericórdia, as aldeias dos povos originários, suas cerimônias e tradições. Precisamos que os brasileiros valorizem não só o sol, a praia, as festas e a gastronomia, mas a verdadeira origem do Brasil.”
Tharsila Prates
(Foto: mapa de Giovanni Battista Ramusio, considerado como a primeira representação cartográfica do Brasil. Exemplar colorizado da Biblioteca Digital de Cartografia Histórica — Universidade de São Paulo)


