Há lugares em Salvador que parecem carregar a marca de quem passou por eles — e alguns, inevitavelmente, levam o gesto firme e generoso de Lina Bo Bardi. No início de dezembro, completaram-se 111 anos do nascimento da arquiteta italo-brasileira, que chegou à capital baiana pela primeira vez no fim dos anos 1950 e, nos anos 1980, concebeu o Complexo da Ladeira da Misericórdia, formado pelo Espaço Coaty e por três edificações históricas que passam por restauração, com previsão de entrega para março de 2026.
Entre idas e vindas, Lina encontrou em Salvador mais do que um posto de trabalho: achou terreno fértil para uma ideia de arquitetura que abraça gente, memória e cotidiano. “Lina tem uma relação fundamental com a Bahia”, lembra o historiador Rafael Dantas. “Ela está inserida em um momento em que o estado assume um protagonismo na narrativa visual do país, com equipamentos como o Museu de Arte Moderna e o próprio Hotel da Bahia — local onde ela residiu — exercendo papel central.”
A porta de entrada dessa história é o Solar do Unhão. O conjunto do século XVII, então degradado, ganhou nova vida quando Lina decidiu restaurá-lo e transformá-lo no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM). Ali, entre paredes coloniais e um desenho arquitetônico que recusava separar erudito e popular, ela deixou sua primeira grande marca na cidade.

Museu de Arte Moderna da Bahia – Divulgação
Ao lado de nomes como Martim Gonçalves, Glauber Rocha e Mário Cravo Júnior, Lina mergulhou no universo afro-brasileiro e nas manifestações populares, reconhecendo ali uma potência cultural que destoava dos modelos modernistas vindos de fora. Assim, passou pela Universidade Federal da Bahia e, a convite do governador Juracy Magalhães e de sua esposa, Lavínia, assumiu a direção do MAM.
A partir da área do Unhão, Lina caminhou para outras partes da cidade que a acolheu: participou de exposições temporárias no Teatro Castro Alves, frequentou e estudou o Hotel da Bahia — obra modernista de Diógenes Rebouças — e, mais tarde, voltou para assumir um dos capítulos mais ambiciosos de sua trajetória: a recuperação do Centro Histórico.
“É nos anos 50 que Lina começa a se inserir cada vez mais no espaço baiano”, explica Rafael. “Depois, nos anos 80, ela se torna uma das expoentes desse processo de revitalização”, completa. Dessa segunda fase nasce uma das obras mais emblemáticas: o Coaty. Espremido entre a Ladeira da Misericórdia e a encosta que desce para o Comércio, o conjunto arquitetônico mistura habitação, circulação, convivência e um restaurante abraçado por uma árvore — um desenho que expressa bem como Lina entendia a cidade: não como cenário, mas como encontro.

Complexo da Ladeira da Misericórdia – Reprodução
Hoje, o Coaty passa por uma restauração conduzida por quem conhece de perto a arquiteta e sua obra. “Contratamos os arquitetos Marcelo Ferraz, Marcelo Suzuki e José Minhos, que fizeram parte da equipe de Lina”, explica Tânia Scofield, presidente da Fundação Mário Leal Ferreira. “O diagnóstico deles aponta que a estrutura está íntegra. A obra é de restauro, preservando integralmente o projeto original.”
Ao lado do Coaty, seguem também em recuperação a Casa dos Três Arcos e outros imóveis ligados ao conjunto. O restauro, segundo Tânia, parte de duas bases sólidas: o conhecimento da equipe que conviveu com Lina e o acesso aos projetos originais cedidos pelo Instituto Bardi. “Não há o que modificar”, reforça. “É restauro dos elementos que foram degradados pelo tempo.”
O plano prevê ainda que a Associação Cultural Pivô assuma a implantação de um centro cultural no local, abrindo o espaço à cidade e criando uma nova costura entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. “Traz a obra de Lina para o acesso de todos, dinamizando o Comércio”, diz. Além do Coaty e do Unhão, a trajetória baiana de Lina inclui projetos como a Casa do Benin — elo entre Salvador e o Golfo do Benin dentro do programa de revitalização — e o Teatro Gregório de Mattos, inaugurado em 1986 no antigo Cassino Tabaris. Obras que, cada uma à sua maneira, disputam com o tempo a permanência do gesto original: o de uma arquitetura pensada para acolher, provocar e ampliar o uso da cidade por quem vive nela.
Se tudo correr como previsto, o conjunto restaurado deve ser reaberto em 2026 — ano em que os projetos de Lina no Centro Histórico completam 40 anos. Um marco que, segundo Tânia, não poderia passar despercebido. “Será mais uma ação na preservação do nosso patrimônio material e imaterial”, afirma. Para além dos cronogramas, no entanto, a reabertura também devolve à cidade uma parte de si: a Salvador que Lina viu, desenhou e, de algum modo, ainda nos ensina a olhar.
(Wendel de Novais)
Foto de destaque: Acervo Lina Bo Bardi


