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No Recôncavo Baiano, turismo com ancestralidade transforma memória em experiência viva

Entre igrejas coloniais, terreiros de candomblé, festas populares e comunidades quilombolas, o Recôncavo Baiano está consolidado como um dos territórios mais emblemáticos do país para o turismo com ancestralidade. Mais do que visitar cidades históricas, a experiência propõe um mergulho cultural, de identidade e de memórias que atravessam séculos da formação brasileira.

Em um território marcado pela diáspora africana e pela presença dos povos originários, a viagem ganha contornos simbólicos. O visitante não percorre apenas paisagens históricas, mas também trajetórias culturais que ajudaram a moldar o Brasil. Para o professor e pesquisador Cleydson Sá Barreto do Rosário, especialista em educação profissional e estudioso da história regional, o turismo com ancestralidade nasce justamente dessa busca por pertencimento cultural.

“Podemos definir o turismo de ancestralidade como um segmento da atividade turística motivado pela busca e pela reconexão dos turistas e visitantes com a sua própria história, com a sua cultura e com a sua etnia. Muitas vezes essa motivação surge de relações familiares, de pesquisas acadêmicas ou mesmo da curiosidade de compreender melhor as origens culturais que formam o Brasil”, explica.

A própria expressão, no entanto, vem sendo reinterpretada por profissionais que atuam diretamente com experiências culturais na Bahia. Para Nilzete Menezes, idealizadora da Afrotours — agência pioneira em afroturismo na Bahia — o conceito precisa reconhecer que a ancestralidade antecede o turismo.

“Eu costumo dizer que não existe turismo de ancestralidade, mas turismo com ancestralidade, porque a ancestralidade vem antes do turismo. Trata-se de uma experiência desenvolvida a partir da apresentação de uma comunidade ou de um espaço cultural com base nessa herança. É um segmento extremamente complexo, porque envolve ritos, rituais e uma etiqueta própria que precisa ser respeitada”, afirma.

A Afrotours é a agência pioneira em Afroturismo na Bahia. Foto: Reprodução/Afrotours

Ainda que a expressão tenha ganhado visibilidade mais recentemente, a prática não é nova. Segundo Rosário, há décadas visitantes chegam ao Recôncavo interessados em compreender as camadas históricas da região, que reúne cidades profundamente conectadas por processos culturais semelhantes.

“O que diferencia as cidades do Recôncavo Baiano é justamente aquilo que as une. Cada município possui sua história, suas particularidades e manifestações culturais próprias, mas todos compõem um território plural e profundamente marcado pela herança africana, indígena e europeia. Essa diversidade é justamente a grande riqueza cultural do Recôncavo”, afirma.

Essa herança se manifesta de forma intensa em cidades como Cachoeira e São Félix, onde patrimônios materiais e imateriais convivem no cotidiano. Festas religiosas, culinária tradicional, danças e práticas comunitárias compõem um repertório cultural vivo que atrai pesquisadores, turistas e estudantes.

Para Nilzete, essa diversidade histórica explica por que a Bahia ocupa um lugar central nesse tipo de experiência cultural no Brasil.

“Salvador e a Bahia são consideradas a meca da religião de matriz africana no Brasil. Não sou eu quem afirma isso; grandes antropólogos, como João José Reis, também registram esse protagonismo histórico. Aqui estão marcos fundamentais da formação do culto aos orixás no país, iniciados na Igreja da Barroquinha e também em Cachoeira”, explica.

Em Cachoeira, por exemplo, um levantamento realizado durante a gestão de Rosário na Secretaria de Cultura e Turismo identificou 74 terreiros de candomblé distribuídos entre a sede municipal e comunidades quilombolas da zona rural. Esses espaços religiosos e culturais passaram a integrar também roteiros de visitação interessados em compreender a profundidade da tradição afro-brasileira na região.

Só em Cachoeira há 74 terreiros de candomblé registrados. Foto: Reprodução/GovBA

A experiência costuma provocar impactos imediatos em quem visita o território. “Conhecer Cachoeira é uma mudança profunda e permanente no modo de ser e de viver de qualquer pessoa. O visitante percebe isso no olhar contemplativo, na forma como observa a cidade e na gratidão de estar pisando em um solo tão carregado de história e de memória”, diz o professor, que atua com turismo pedagógico e recebe regularmente grupos escolares e universitários.

Ao longo do calendário anual, festas religiosas e manifestações populares ampliam essa experiência cultural. Entre elas está a tradicional celebração da Festa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, considerada um dos marcos do turismo afro-religioso na Bahia.

Além do valor simbólico, o turismo com ancestralidade também movimenta a economia local. Comunidades quilombolas passaram a estruturar roteiros próprios, conectando visitantes à história da resistência negra no Brasil e fortalecendo iniciativas de turismo de base comunitária. Nilzete observa que esse processo também tem impacto social mais amplo, ao ampliar o repertório cultural dos participantes.

“Além de transformar pessoas individualmente, essas experiências também mudam a forma como a informação circula. As pessoas passam a debater outros temas, ampliam o olhar e criam vínculos com comunidades quilombolas e indígenas. Mais do que uma experiência turística, é um movimento de consciência, pertencimento e reivindicação de direitos”, afirma.

Rota da Liberdade. Foto: Eric Luis Carvalho/Arquivo g1

Entre os exemplos desse movimento está a chamada Rota da Liberdade, organizada por moradores das comunidades quilombola do Kaonge, Dendê e região. O percurso combina trilhas históricas, narrativas comunitárias e experiências culturais que aproximam visitantes da memória da região.

Outro marco dessa conexão entre ancestralidade, território e experiência cultural é a Festa da Boa Morte, realizada anualmente na cidade de Cachoeira. Organizada pela Irmandade da Boa Morte, composta por mulheres negras descendentes de africanos escravizados, a celebração reúne rituais religiosos, procissões, samba de roda e momentos de confraternização que atraem visitantes de diferentes partes do país e do exterior. Mais do que uma festividade, o evento reafirma a força das tradições afro-brasileiras e projeta o Recôncavo como um dos principais territórios de preservação da memória e da cultura negra no Brasil.

Nesse cenário, o Recôncavo Baiano reafirma sua condição de território onde passado e presente convivem de forma intensa. Mais do que destino turístico, a região se apresenta como espaço de reconexão — um lugar onde a viagem, muitas vezes, se transforma em retorno às próprias raízes.

Texto: Wendel de Novais
Foto: Arquivo UFRB

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