Todos os anos, eles colorem as avenidas dos circuitos do Carnaval de Salvador. O sucesso é tanto, que o modelo baiano foi exportado para outras folias e Micaretas ao redor do país. Se hoje em dia são caracterizados por camisas mais simples, voltadas para o conforto, os abadás já tiveram shorts e fantasias na sua composição, sendo reinventados ao longo dos anos.
O antropólogo Marlon Marcos explica que as roupas foram criadas com o objetivo de substituir as antigas mortalhas. Apesar de bonitas, as peças eram consideradas muito quentes para os foliões, que queriam se sentir mais confortáveis na avenida. O primeiro design foi criado em 1993 por Pedrinho da Rocha. O modelo foi desenhado para o bloco Eva que, naquele ano, foi comandado pela banda Asa de Águia.
“As mortalhas e os macacões eram muito bonitos, mas eram muito quentes. O abadá foi uma revolução ao trazer mais conforto, deixando as pernas livres e dando mais liberdade de movimento e facilitando a vida do folião. Além disso, a peça se tornou um instrumento de expressão, já que são modelos bonitos, com detalhes artísticos, tornando-se parte da identidade do Carnaval de Salvador”, explica.

A vestimenta era composta por uma camisa e um short, além de adesivos com os 12 signos do zodíaco, em referência a temática daquele ano. A vestimenta criada por Pedrinho revolucionou a festa e foi adotada pelos outros blocos no ano seguinte. A parte de baixo foi abandonada depois de 10 anos, já que o público preferia compor o seu próprio look.
Com o tempo, o abadá se transformou em peças que compunham a identidade de cada bloco, o que se refletia nos modelos apresentados. O grande destaque na época era o Bloco Cheiro, que mudou a cara do desfile com abadás temáticos e fantasias, como as de Cowboy e Cangaceiro.
“Os designers que desenhavam o abadá tinham uma preocupação em dar uma identidade a cada bloco. Com o tempo, as peças foram perdendo valor e sendo feitas de tecidos mais leves, mais baratos, sem grande preocupação com a identidade e com a expressividade artística. Ele se tornou uma peça que serve para que a pessoa possa entrar no bloco e se divertir, sem maiores cuidados”, diz Marlon.

Se nos últimos anos, as produções dos abadás foram focadas em garantir o conforto, o destaque ficou para as customizações. Ao receberem suas peças, as pessoas dão o seu toque pessoal, transformando as roupas em tops e coletes antes de seguir o trio. Esse processo resultou na criação do ‘Colé’, que virou marca dos blocos da cantora Cláudia Leitte.
“As mulheres adaptaram a roupa à silhueta do seu corpo, transformando-o em uma ferramenta de beleza e de expressão. As peças se moldam ao jeito de quem as usa, quebrando a ideia de padronização dos blocos”, segue o antropólogo.

Foto: Gabriel Carvalho/Folhapress
Apesar de questionar a simplicidade dos designs atuais, Marlon destaca a importância da vestimenta para o Carnaval soteropolitano. “É uma peça revolucionária, importante e que é copiada por outras cidades do Brasil. Isso mostra como a Bahia sabe fazer festa e essa é uma habilidade que se sofisticou a partir das experiências afroindígenas na cidade. O Abadá ilustra muito a nossa maneira de fazer a celebração acontecer e ser convidativa para nós e para os visitantes”, finalizou.
Fotos: Reprodução Acervo Pedrinho da Rocha
Repórter: Gilberto Barbosa
