A poetisa e escritora carioca de livros infantojuvenis Roseana Murray, 74 anos, está prestes a desembarcar na Bahia para a Festa Literária Internacional de Cachoeira, de 23 a 26 de outubro. A cidade no Recôncavo baiano, onde esteve há 7 anos pela primeira vez, virou uma paixão. “Nunca me esqueci de Cachoeira.”
Ela considera a paisagem linda e onde pulsam uma cultura mesclada e um movimento de literatura negra que a interessa desde os tempos em que visitou a Costa do Marfim. “Me senti em casa, como um déjà vu. Sou uma branca com alma preta”, diz Roseana.
Atacada por pitbulls na rua onde morava em Saquarema (RJ), no ano passado, a escritora perdeu um braço e viu a sua rotina se transformar drasticamente. Menos de um ano depois, perdeu o marido, o jornalista Juan Arias. A vida mudou, mas ela conta que a escrita, não. Depois da tragédia, lançou o livro Braço Mágico, que surgiu quando a autora ainda estava no hospital e sentiu a necessidade de transformar em um ato poético o membro que perdeu no acidente. A obra será assunto na Fliquinha.
Agora que voltou a participar de eventos, está à vontade também para falar sobre o que domina: literatura e formação de leitores. Exalta a leitura crítica como uma maneira de se defender. “Ter leitura crítica significa que a pessoa vai poder ler o mundo com várias nuances, para não cair nas armadilhas do capitalismo selvagem. Significa não entregar a mente para o guru da vez”, explica, dizendo-se ser radicalmente contra a extrema direita.
As escolas são o espaço ideal para que essa formação se desenvolva. A Prefeitura de Saquarema, onde Roseana morava desde 2002, acabou de realizar a sexta edição do Prêmio de Poesia Roseana Murray, com o tema “Eu e o nosso planeta”. A iniciativa é voltada para alunos do ensino fundamental e para o público da EJA (Educação de Jovens e Adultos). Foram 15 vencedores em cinco categorias. A escritora participou da premiação por videoconferência.
Hoje, ela vive na chácara da família em Visconde de Mauá. “Estou escondida lá e feliz.”
Diz ainda: “Tenho muitos livros publicados, uns 100, e leitores de todas as idades, aliás não acredito em idade, mas sim em experiências vividas. Me alegro quando penso que um poema que escrevi aqui na minha mesa, sozinha, chega a lugares tão distantes e emociona tanta gente.” Este é do livro Braço Mágico:
GEOGRAFIA
Para decifrar o mundo
é muito pouco saber geografia, ler mapas.
Há que viajar no tempo,
ler histórias, fotografias, sentimentos.
Alguém, muito longe
no passado,
pode estar bem
ao nosso lado,
quando abrimos um livro
e ouvimos sua voz.
Confira aqui a programação da Flica 2025.
(Tharsila Prates)
