Em um momento global de revisão crítica das narrativas históricas e de enfrentamento
ao racismo estrutural, o Back2Black Festival se afirma, em Paris, como um espaço de
reposicionamento simbólico da cultura negra, não como exotismo ou entretenimento
periférico, mas como produção central de pensamento, memória e poder.
A programação do dia 3 de abril explicita esse deslocamento. Entre as atrações, a
exibição do filme “Os 3 Obás de Xangô” se impõe como eixo político e epistemológico
do festival. A obra toma como referência três figuras centrais da cultura brasileira: Jorge
Amado, Dorival Caymmi e Carybé, reconhecidos como Obás de Xangô, e evidencia
como suas trajetórias se entrelaçam com a construção de uma Bahia que produziu
pensamento, arte e resistência a partir da cultura e da religião afrodiaspórica.

Longe de qualquer leitura folclorizante, o filme revela a complexidade institucional do
candomblé, especialmente na criação do ofício sagrado de “Obá de Xangó”, concebido
como resposta estratégica à violência do Estado e às práticas sistemáticas de
perseguição policial e política às religiões de matriz africana na Bahia, e no Brasil.
Esse título tradicional foi criado no histórico terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, sob a
liderança de Mãe Aninha, no ano de 1936, ficando a cargo de Mãe Senhora convidar
Jorge Amado, Caymmi e Carybé para serem Obás. Foi nesse terreiro, referência de
organização religiosa e política, que se estruturou esse título tradicional: a criação dos
obás como figuras de proteção, mediação e representação, capazes de dialogar com a
sociedade e com os governos e enfrentar, com inteligência estratégica, a repressão
institucional.
Dirigido por Sérgio Machado, o filme evidencia que o candomblé não apenas resistiu,
mas elaborou mecanismos sofisticados de proteção e articulação social. A figura do obá
emerge, nesse contexto, como agente político e guardião, operando em zonas de
negociação com estruturas historicamente hostis, uma verdadeira articulação de
sobrevivência fundamentada na diáspora africana.
Ao lado do diretor, os produtores Diogo Dahl e Maria Fernanda Miguel, da Coqueirão
Pictures, também estiveram presentes, levando à cena internacional não apenas uma
obra, mas uma Bahia densa, ancestral e afirmativa. Em Paris, essa presença não é
simbólica: é uma intervenção nos circuitos globais de legitimação cultural.
Na sequência da exibição, a apresentação de Gilberto Gil amplia o alcance desse gesto.
Aqui, Gil se afirma como uma das maiores referência da cultura afrodiaspórica brasileira,
traduzindo em música a mesma travessia histórica de resistência e reinvenção que
estrutura o filme e o próprio festival.
Levar o Candomblé, em sua densidade histórica, política e ritualística, para Paris é
tensionar hierarquias culturais e reposicionar a Bahia como território produtor de
conhecimento e de formas próprias de organização e resistência.
Neste contexto, abrir espaço para essa narrativa, com a exibição no Back2Black não
apenas programa um festival: ele intervém. E, ao fazê-lo, inscreve a cultura
afrodiaspórica no centro do debate contemporâneo, onde sempre deveria estar. O filme
foi exibido no icônico Théatre du Châtelet, no Festival Back2Black, idealizado por
Connie Lopes.
Com isso, ao assistir a essa sequência no festival, pude perceber que não se trata apenas
de visibilidade, mas da afirmação concreta de uma presença histórica que hoje se projeta
com autonomia no cenário internacional.

Por Sérgio Nunes
Advogado e Articulista Cultural
