A atriz baiana Laila Garin está em cartaz com a nova versão de “As Centenárias”, espetáculo consagrado de Newton Moreno que agora ganha formato musical. Em cartaz no Teatro Municipal Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, a montagem atualiza o texto ao incorporar canções inéditas e reforçar a ligação com a cultura popular nordestina.
A nova encenação amplia a dimensão poética da obra ao trazer músicas originais de Chico César e direção de Luís Carlos Vasconcelos. No centro da trama estão duas carpideiras centenárias que transformam a morte em experiência coletiva, atravessada por humor, memória e afeto.
Em entrevista ao site Ronaldo Jacobina, Laila Garin fala sobre o processo de construção do espetáculo, a conexão com suas raízes baianas, a parceria em cena com Juliana Linhares e as influências que marcaram sua trajetória artística.
As Centenárias já é um espetáculo consagrado. O que mais te chamou atenção nesta nova versão musical?
Acho que estamos contando uma história de aventura. Um pequeno épico. Uma pequena saga de duas heroínas: uma discípula e sua mestra que se transformam em amigas. Temos uma equipe predominantemente nordestina, de diferentes estados do Nordeste, uma equipe bastante feminina. Temos músicas originais de Chico César e Newton Moreno compostas especialmente para esta versão e recursos cênicos baseados predominantemente no ator. Uma versão bem artesanal.
De que forma o fato de a peça ser ambientada no Nordeste e contar com canções de Chico César contribui para a sua conexão com o trabalho?
Eu sou da Bahia, sou nordestina. Eu me sinto entre os meus. A certeza de ter visões e vivências a partir de dentro do Nordeste, com o que temos em comum e o que temos de diverso cada um. Com Chico, criei uma conexão anterior no projeto A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa. Nele, tenho uma confiança de que ele tem uma percepção fina do que é proposto pela dramaturgia e de uma capacidade camaleônica que Chico tem de criar em estilos diversos. As músicas parecem que brotam nele.





Dividir o palco com Juliana Linhares, outra nordestina, em uma obra tão conectada à região traz um sentimento ainda mais especial?
Sim. É uma grande parceira. A gente joga e se diverte muito em cena. Eu admiro o trabalho de Juliana como intérprete e como artista, e isso é importante. Uma escutando a outra no que a outra tem de melhor. Acho que a gente se complementa bem.
De que forma essa origem no teatro de Salvador ainda influencia o seu trabalho hoje, mesmo com uma carreira nacional?
De todas as formas. Meu corpo, meu imaginário, minha formação mais básica, minhas paisagens culturais, minhas memórias. O que eu sou. Até hoje, crio com base no que aprendi e treinei na mímica corporal dramática com a professora e atriz mímica Nadja Turenko, na Bahia. Meu corpo entende o teatro a partir disso. O que aprendi de dramaturgia, como abordar cada texto etc., vem da faculdade que fiz na Escola de Teatro da UFBA. A música que sempre me acompanha nos espetáculos que faço foi na Bahia, nos meus primeiros espetáculos amadores e profissionais, que já traziam música como elemento dramatúrgico. A Bahia está em mim, mesmo que eu faça personagens sudestinos ou do sul.
Qual é o tamanho da influência da França no processo da sua formação como atriz?
Como pessoa, tenho as referências da cultura pelo contato familiar por parte de pai. As idas à França, o convívio. Como atriz, minha maior formação foi a mímica corporal dramática, que foi criada pelo francês Étienne Decroux. Fiz um estágio no Théâtre du Soleil e faço oficinas a cada vez que o grupo vem ao Brasil, bem como fiz parte de uma montagem que Ariane Mnouchkine fez no Brasil junto com Juliana Carneiro.
Fotos: Divulgação/Andrea Nestrea
